O sofrimento dos homens simplesmente importa menos
Evidências mostram que mulheres são reconhecidas mais facilmente como vítimas e homens, como vilões — e isso não é exatamente culpa do feminismo
Comparativamente, o Ocidente segue sendo um paraíso para o sexo feminino. Isso parece verdade -- comparativamente, repito -- a despeito da insistência das classes educadas em desmerecer as conquistas desse lado do globo.
Vejam o caso do Brasil, que nem é o melhor exemplo de civilização Ocidental. Nos últimos anos, o país ampliou consideravelmente a rede de benefícios e proteções reservados às mulheres, sobretudo às vítimas de violência. Desde 2023, elas podem receber auxílio-aluguel por até seis meses; empresas com cem ou mais empregados passaram a ser obrigadas a divulgar relatórios de transparência salarial e adotar medidas específicas de promoção feminina; em alguns casos, não ter mulher suficiente em cargos de chefia gera multa, como no caso da Ortobom; vítimas de violência doméstica ganharam prioridade no programa Minha Casa, Minha Vida; e, em 2024, passaram a ter atendimento prioritário no SUS e na segurança pública, além de prioridade em cirurgias reparadoras. No mesmo ano, qualquer nível de agressão contra mulheres se tornou um tipo especial de crime, o de feminicídio, com pena de vinte a quarenta anos. Em 2026, outra lei determinou prioridade no abastecimento de alimentos para casas de acolhimento de mulheres e seus dependentes. Isso sem falar na famosa PL da misoginia, proposta no mesmo ano.
Alguns países foram além do reconhecimento simbólico. A Finlândia paga uma prestação a famílias que mantêm crianças menores de três anos sob cuidados domésticos, enquanto a Argentina concede às mães anos de contribuição previdenciária por filho. Não é exatamente um salário para donas de casa, como alguns criticaram, mas não deixa de ser uma estranha transformação do cuidado da própria família em benefício econômico concedido pelo Estado -- um reconhecimento da condição feminina tão estranho quanto recebe uma mesada do estado por cuidar do próprio animal de estimação ou por lavar o próprio banheiro.
Críticos tratam os dados acima como vantagens femininas, não como direitos. Seja como for, também há situações objetivas em que as mulheres estão avançando em direção a uma igualdade mínima, mas também outras em que as mulheres agora estão em vantagem. Na educação básica mundial, as diferenças de matrícula e frequência entre os sexos caíram para menos de um ponto percentual nos três níveis de ensino; no ensino superior, as mulheres já eram 113 para cada 100 homens matriculados em 2023. Na política, a participação feminina nos parlamentos nacionais passou de 11,3% das cadeiras em 1995 para 27,5% em janeiro de 2026. Na série histórica comparável do índice Women, Business and the Law, do Banco Mundial, a pontuação média global dos direitos econômicos das mulheres subiu de 45,8 pontos em 1970 para 77,1 em 2022. No mercado de trabalho, a diferença entre as taxas de emprego masculina e feminina diminuiu de 27,1 para 23,1 pontos percentuais entre 1991 e 2024. Até a mortalidade materna mundial caiu cerca de 40% entre 2000 e 2023. Esses dados não demonstram igualdade absoluta entre os sexos, mas descrevem uma situação de sucesso galopante rumo a transformações profundas nas condições entre os sexos.
Infelizmente, avanços objetivos nem sempre se convertem em percepção subjetiva de progresso. Em uma pesquisa Ipsos–King’s College realizada em 32 países, 68% dos entrevistados disseram que ainda existe desigualdade social, política ou econômica entre homens e mulheres, embora 54% também considerassem que os esforços para promover direitos iguais já haviam ido longe o suficiente e 48% acreditassem que essa promoção começava a produzir discriminação contra os homens. Em 2026, essa percepção tornou-se ainda mais marcada entre eles: 52% dos homens, contra 36% das mulheres, afirmaram que os avanços femininos estavam gerando novas formas de desigualdade masculina.
Pesquisas do Pew Research Center encontram uma espécie de percepção em espelho: homens reconhecem com mais facilidade as conquistas femininas, mas também enxergam com maior nitidez a deterioração de sua própria condição, enquanto mulheres tendem a perceber mais intensamente as desvantagens que continuam recaindo sobre elas — o que, francamente, me soa muito previsível considerando o autointeresse relativo a cada sexo. O resultado é um descompasso curioso: mesmo quando os indicadores apontam maior igualdade, cada sexo continua experimentando subjetivamente o debate como se o outro estivesse avançando mais depressa — e, em muitos casos, às suas custas.
Isso me lembrou uma postagem que fiz no instagram do Garagem Psi esses dias. Eu falei sobre um estudo feito na Nova Zelândia com cerca de 15 mil homens visando descobrir quantos seriam os machos realmente tóxicos. Os resultados indicaram uma minoria de homens tóxicos, cerca de 3%. Um resultado óbvio, mas não para as seguidoras, que se revezaram em alegar que todos os homens são tóxicos e que 3% ainda é um número preocupante. Não tem jeito, por mais que ampliemos seus direitos, redes de proteção ao ponto de surgirem verdadeiras vantagens sobre os homens, as mulheres sempre parecem crer que mais precisa ser feito. É como um novo governo reduzir os crimes de uma cidade de 80% para 3% e os cidadãos ainda protestarem do mesmo modo, visando criminalidade zero -- um claro resultado inalcançável.
Tenho chamado esse fenômeno — um tanto jocosamente, confesso — de “neocavalheirismo”. Tal como se fazia séculos atrás, nossas tripas se contorcem sempre que vemos uma dama ser interrompida, refutada, sujeita (mesmo que em menor nível) aos mesmos males aos quais a maioria das pessoas está submetida. Isso pode estar por trás do efeito que vou chamar aqui de “o mundo está contra as mulheres”. As evidências estão bem longe de apoiar a existência de algo assim.
Há razões psicológicas bem profundas para a existência desse tal neocavalheirismo. As psicólogas Maja Graso e Tania Reynolds oferecem uma pista de quais são essas razões em sua revisão sistemática. A compilação de dados apresentada por elas indica que talvez estejamos diante de uma assimetria sexual na maneira como percebemos sofrimento, vulnerabilidade e responsabilidade. Apesar disso não tornar menos reais as violências sofridas por mulheres. sugere que nossa atenção moral talvez não seja distribuída de maneira tão imparcial quanto gostamos de imaginar.
As razões da assimetria moral
A primeira explicação é evolutiva. Gestação, lactação e grande parte do cuidado infantil impuseram às mulheres custos reprodutivos maiores e fizeram com que a sobrevivência dos filhos dependesse, em média, mais diretamente delas. A ideia aqui é muito simples: grupos capazes de proteger mulheres em idade reprodutiva poderiam preservar melhor sua capacidade de criar descendentes e crescer ao longo das gerações. Para isso, não é preciso ter nenhum tipo de contabilidade ancestral do grupo, basta que as motivações psicológicas de cada indivíduo funcione sob a regra do “mulheres e crianças primeiro”, digamos assim.
A segunda explicação parte das diferenças reais nas taxas e na capacidade de produzir dano. Em 2021, homens representavam cerca de 90% dos suspeitos de homicídio intencional no mundo — mas também 81% das vítimas, já que grande parte da violência letal ocorre entre homens. Homens também possuem, em média, maior força física (aproximadamente uns 10 quilos a mais do que mulheres). Além disso colocar as mulheres em clara desvantagem quando um conflito entre os sexos se torna físico, também dissuade disputas físicas entre elas mesmas. Essa configuração do tabuleiro torna o jogo muitas vezes desvantajoso para o sexo feminino. Quase uma em cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual de parceiro íntimo, violência sexual praticada por não parceiro, ou ambas. Diferenças como essas podem alimentar atalhos mentais que são razoavelmente ajustados às médias populacionais, mas injustos quando aplicados automaticamente a indivíduos. Mas nossa cognição social não foi moldada para ser justa, foi moldada para fazer julgamentos rápidos com o mínimo de informação disponível. Por que? Porque é o que tem mais chances de funcionar. Assim, diante de informações incompletas, homens são vistos mais facilmente como agentes de dano, enquanto mulheres são vistas mais facilmente como prováveis vítimas. Isso nos leva à terceira explicação.
Segundo a teoria do moral typecasting — que podemos traduzir como atribuição de papéis morais — diante de uma situação de dano, tendemos a distribuir os envolvidos entre duas categorias: o agente moral, capaz de agir e causar sofrimento, e o paciente moral, que sofre e desperta compaixão. Esses papéis competem entre si: quanto mais alguém é percebido como agente, mais difícil se torna reconhecê-lo como vítima. É como ocorre com a altura: se você precisa pegar um objeto no alto de um armário, você pensa que um homem alto vai ajudar, não um baixinho. Como a masculinidade é associada a força, autonomia e assertividade, homens se encaixam mais facilmente no papel de perpetradores; como a feminilidade é associada a calor, passividade e vulnerabilidade, mulheres são classificadas mais prontamente como vítimas. Em experimentos, participantes presumiram que vítimas de sexo não informado eram mulheres e identificaram figuras abstratas como femininas quando elas pareciam sofrer, mas como masculinas quando pareciam causar o dano.
Por fim, as autoras propõem uma explicação histórica e cultural. Movimentos feministas e instituições modernas ampliaram nossa capacidade de identificar formas de violência antes naturalizadas, desenvolveram uma linguagem para descrevê-las e construíram mecanismos jurídicos e políticos para enfrentá-las. Há aqui um avanço moral real. Em relação aos homens, a hipótese é que muitas formas de sofrimento masculino permanecem fragmentada. Homens são julgados como fracassados, imprudentes, dependentes ou fracos. As características isoladas podem descrever alguns homens acuradamente, mas essas características nunca aparecem juntas numa categoria bem definida como acontece com o sofrimento feminino. Quando homens sofrem, eles são sozinhos responsáveis por isso; quando mulheres sofrem, seu entorno é o responsável.
Quem merece proteção — e quem merece punição
Esse duplo padrão moral também aparece em experimentos. O pulo do gato dessas tarefas é manter constante o sofrimento em questão e alterar o sexo da pessoa envolvida. No chamado dilema do bonde, um veículo desgovernado matará várias pessoas, e o participante precisa decidir se intervém, sacrificando deliberadamente uma delas para salvar as demais. Os participantes tendem a demonstrar maior resistência a empurrar nos trilhos uma mulher do que um homem. Para isso acontecer não precisamos nem de pessoas de verdade. Em simulações de realidade virtual, avatares femininos são poupados com maior frequência do que avatares masculinos. Em outro experimento no mesmo estudo sobre os dilemas do bonde, participantes aceitavam até mesmo abrir mão de ganhar mais dinheiro para impedir que uma mulher, em vez de um homem, recebesse choques dolorosos.
Em outro estudo, ntervenções com benefícios coletivos e efeitos colaterais idênticos receberam menos apoio quando prejudicavam mulheres. Isso valeu para programas sociais, medicamentos e até medidas aplicadas a atividades de cuidado tradicionalmente femininas. Além disso, resultados científicos desfavoráveis às mulheres foram considerados mais nocivos, menos importantes e menos confiáveis do que conclusões equivalentes desfavoráveis aos homens.
Tudo isso sugerem que o sexo da vítima altera o peso moral atribuído ao mesmo sofrimento. Danos contra mulheres exigem justificativas mais fortes; danos contra homens são aceitos mais facilmente apenas como custo necessário para algo maior ou risco esperado diante de uma situação. É como se uma intuição mais utilitarista — sacrificar alguns para beneficiar muitos — fosse acionada mais prontamente quando homens pagam o preço, enquanto uma intuição deontológica, de inspiração kantiana, ganhasse força quando mulheres estão envolvidas: não se deve usar uma pessoa apenas como meio para atingir outro objetivo. A realidade social, para além dos experimentos de laboratório, mostram isso. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, a taxa mundial de mortes relacionadas ao trabalho é de 51,4 por 100 mil homens em idade ativa, contra 17,2 entre mulheres. A exposição masculina a guerras, ocupações perigosas e outras situações potencialmente fatais tornou-se historicamente tão comum que muitas vezes parece que em seu íntimo as pessoas pensam que os homens são responsáveis morais pela sua própria morte nesses contextos.
A outra metade do fenômeno aparece quando o foco muda da vítima para o agressor. Por exemplo, pessoas classificaram uma mesma conduta como mais sexista quando o autor dela é homem. Quando o sexo da pessoa é invertido como autor dos mesmos comentários, o julgamento também se inverte. Além disso, jurados simulados tendem a dar avaliações mais severas a réus homens. Pesquisas com decisões judiciais reais apresentam maior probabilidade de encarceramento e penas mais longas para o sexo masculino. Em uma metanálise com 77.236 condenados em tribunais federais norte-americanos, homens receberam sentenças substancialmente maiores mesmo depois do controle de numerosas características criminais, demográficas e socioeconômicas. Ser mulher constituía, em geral, uma vantagem para o réu, dependendo do crime cometido. Mas, no geral, réus têm mais chances de serem considerados culpados que as rés.
Você deve estar ligeiramente impressionado com as afirmações. Talvez não haja muito o que fazer, dado que é como funciona a nossa cognição social. As caraterísticas médias das mulheres as aproxima do estereótipo de vítima, enquanto as características dos homens os aproxima do protótipo perfeito de agressor. Essa inclinação pode ter sido instalada em nós pela seleção natural ou pode ser fruto do aprendizado social. Tanto faz. Provavelmente funcionamos assim porque homens são mesmo culpados de agressão e assassinato na maioria das vezes. O problema é que essa inclinação, se seguida irrefletidamente, leva a muitas injustiças.
Em um estudo qualitativo, homens vitimados por parceiras relataram que policiais e serviços de apoio responderam com dúvida, ridicularização, indiferença e, em alguns casos, com a prisão do próprio homem que buscava ajuda (!). O mesmo ponto cego pode dificultar a detecção de formas menos óbvias de dano — rumores, ostracismo, manipulação e destruição de reputações —, modalidades indiretas nas quais alguns estudos encontram maior participação feminina. O estereótipo não apenas determina por quem sentimos compaixão: ele também influencia quais agressores conseguimos enxergar.
A vítima que não sabemos enxergar
No início deste texto, sugeri que a imagem de um mundo organizado contra as mulheres sobrevive com uma força desproporcional aos avanços jurídicos, educacionais e institucionais das últimas décadas. Há avanços brutais, não tem como negar as estatísticas. A revisão de Graso e Reynolds ajuda a entender o porque da resistência a esses dados.
Não basta que a realidade mude; é preciso que nossas categorias morais mudem com ela. Se aprendemos a associar a mulher à vítima e o homem ao agente do dano, toda nova proteção feminina parecerá uma correção necessária (e muitas vezes é mesmo), enquanto muitos prejuízos masculinos continuarão sendo interpretados como consequência natural da força, da imprudência ou das próprias escolhas dos homens -- inclusive, esse mesmo texto acabará sendo classificado como “male tears” pelos mesmos motivos. O neocavalheirismo não precisa nascer de uma conspiração feminista nem de hostilidade consciente ao sexo masculino. Pode ser simplesmente a sobrevivência moderna de uma intuição antiga: mulheres devem ser protegidas; homens devem suportar para serem aqueles que protegem.


