Nem todo homem, literalmente
Uma pesquisa com mais de 15 mil homens sugere que a masculinidade tóxica existe, mas está longe de definir a maioria.
Cazarré deu uma entrevista na Globo News. Concordo ou não com o seu congresso sobre masculinidade tradicional, o fato é que o ator foi achincalhado por seus colegas de profissão. No programa da grande emissora não foi diferente. Se esforçaram para criminalizar sua iniciativa a todo momento, culpando cursos e eventos para homens pela “epidemia de feminicídio”. Em um corte que me pareceu célebre, Cazarré se esforça para explicar que a maioria dos homens não são animais tóxicos e violentos. A psicanalista Vera Iaconelli respondeu ironizando: “Nem todo homem, mas sempre um homem”. Não precisa dizer mais nada.
Poucas expressões envelheceram tão rápido — e tão mal — quanto “masculinidade tóxica”. Em poucos anos, saiu de círculos acadêmicos, terapêuticos e militantes para virar palavra de uso comum, dessas que parecem explicar tudo justamente porque explicam coisas demais. Pode designar violência contra mulheres, homofobia, culto à agressividade, incapacidade de falar sobre emoções, cultura incel, mansplaining, Donald Trump, Andrew Tate, o sujeito que não lava o prato e o adolescente que acha que feminismo é uma conspiração contra sua vida sexual. Como ferramenta retórica, funciona. Como conceito, deixa muito a desejar.
O problema não é que a expressão seja inútil. Há comportamentos masculinos destrutivos, e fingir o contrário exige cegueira deliberada. Homens cometem grande parte dos crimes violentos, aparecem em dinâmicas de controle doméstico e ocupam lugar central em subculturas misóginas online. A questão é outra: quando tudo isso cabe no mesmo rótulo, o rótulo deixa de distinguir, virando um mero adereço com impacto retórico; sentença moral no lugar de categoria analítica.
É esse excesso de elasticidade que estraga o debate. Para uns, o termo nomeia modelos de homem que produzem sofrimento. Para outros, sugere que masculinidade é uma espécie de contaminação (como sugeriu o diretor James Cameron). Entre as duas leituras, instala-se a guerra cultural perfeita: enquanto um lado usa martelo, o outro finge que não há prego.
O erro dos dois lados
A confusão em torno da expressão produz dois erros simétricos. O primeiro é defensivo: tratar “masculinidade tóxica” como invenção de feministas ressentidas; como uma artificialidade criada por acadêmicos e militantes. É uma fuga conveniente. Basta olhar para a violência de gênero, para a homofobia como ritual de afirmação masculina e para certas subculturas misóginas online para perceber que há algo aí. Negar isso é confundir crítica com perseguição.
O segundo erro é transformar masculinidade em um tipo de suspeita ontológica. Como numa clássica discussão de relacionamento, o homem já entra no tribunal condenado. Força, disciplina, competitividade, proteção, autonomia ou identificação com o próprio gênero passam a parecer sintomas de uma patologia social. É uma leitura sedutora porque simplifica o mundo, mas a vida psicológica raramente obedece a uma geometria moral tão simplificada como essa.
Essa ambiguidade não aparece apenas no debate vulgar das redes. Ela também ronda discussões mais sérias sobre saúde mental, educação e desenvolvimento masculino. Quando se fala em “ideologias masculinas rígidas”, por exemplo, a crítica pode ser tecnicamente razoável: certos modelos de masculinidade realmente dificultam expressão emocional, busca de ajuda e relações menos hierárquicas. Mas basta a linguagem escorregar um pouco para que a crítica a normas rígidas se transforme em um ataque aos homens e a tudo que remonta ao universo masculino. É aí que o argumento perde precisão e entrega munição ao ressentimento que pretendia combater.
A pergunta adulta, portanto, não é se os homens são vítimas inocentes ou culpados de um pecado original metafísico e histórico contra as mulheres. É quais formas de masculinidade produzem dano, em quais condições e por quais mecanismos.
Perfis, não caricaturas
Uma peça faltante em todo esse debate, em que os membros parecem estar numa cruzada moral, preocupados em julgar mais do que em descobrir o que é fato, são referências a estudos empíricos, dados, evidências. Ao observar homens reais, será que aparecem padrões reconhecíveis de atitudes e traços associados à tal masculinidade tóxica?
Em 2025, com dados de uma amostra de 15.808 homens heterossexuais da Nova Zelândia, os autores de um estudo analisam oito indicadores frequentemente associados à masculinidade problemática: centralidade da identidade masculina, preconceito sexual, baixa agradabilidade, narcisismo, sexismo hostil, sexismo benevolente, oposição a iniciativas de prevenção da violência doméstica e orientação à dominância social.
A maioria dos estudos quantitativos como esse calculam correlações entre variáveis -- se duas coisas costumam andar juntas. Por exemplo: homens que pontuam mais alto em narcisismo também tendem a pontuar mais alto em sexismo hostil? Homens mais identificados com o próprio gênero também mostram mais preconceito sexual? Esse tipo de análise revela associações entre variáveis, mas não mostra, necessariamente, que tipos de homens combinam esses traços de maneiras diferentes. Essa análise é bem interessante porque dois homens podem pontuar alto em algum indicador isolado e, ainda assim, pertencer a configurações psicológicas muito diferentes. Um pode ser paternalista, religioso, tradicionalista e “protetor” em relação às mulheres. Outro pode ser hostil, ressentido, narcisista e favorável a hierarquias duras entre grupos. Chamar os dois simplesmente de “tóxicos” não parece explicar muita coisa concreta sobre esses dois tipos de homens.
A maioria não é tóxica
A análise encontrou cinco perfis de masculinidade. O maior deles, representando 35,4% da amostra, foi chamado pelos autores de atóxico: homens com baixos níveis em todos os oito indicadores avaliados. Em seguida aparecem dois grupos moderados, que juntos somam mais da metade da amostra. Um deles tem baixos níveis de preconceito contra pessoas LGBT; o outro é parecido em vários indicadores, mas apresenta maior preconceito sexual. Até aqui, portanto, o retrato é pouco compatível com a ideia de que a masculinidade, por si mesma, seja uma fábrica inevitável de misoginia, narcisismo e dominação.
Mas o estudo também não oferece conforto para quem gostaria de fingir que o problema não existe. Dois perfis menores concentram os padrões mais preocupantes. O primeiro, com 7,6% da amostra, foi chamado de tóxico benevolente. Esses homens pontuam mais alto em sexismo benevolente, preconceito sexual e centralidade da identidade masculina. É uma forma de masculinidade problemática menos obviamente agressiva: paternalista, tradicionalista, convencida de que mulheres devem ser protegidas, idealizadas e mantidas em certos papéis. Esse não é o tipo de machismo que bate na mesa; é aquele que sorri, elogia, protege e muitas vezes restringe os papéis das mulheres com as melhores das intenções.
O segundo perfil, bem menor, com 3,2% da amostra, é o tóxico hostil. Aqui aparece a imagem mais próxima do que o debate público costuma imaginar quando fala em masculinidade tóxica: níveis mais altos de sexismo hostil, baixa agradabilidade, narcisismo, oposição à prevenção da violência doméstica e orientação à dominância social -- um perfil marcado por uma visão hierárquica e defensiva das relações sociais, em que mulheres, minorias e políticas de proteção tendem a ser percebidas como ameaças à autoridade masculina. É uma masculinidade menos paternalista e mais abertamente defensiva, hierárquica, ressentida e agressiva.
O dado decisivo é que os dois perfis mais problemáticos somam cerca de 11% dos homens estudados. Isso não é pouco, porque minorias ideológicas intensas podem causar danos sociais desproporcionais, especialmente quando encontram plataformas, comunidades e líderes dispostos a amplificar ressentimento. Mas também está muito longe de ser a maioria -- muito longe do que Iaconelli quer dizer com “nem todo homem, mas sempre um homem”. A masculinidade tóxica existe, mas é minoritária, heterogênea e composta por formas diferentes de relação com poder, gênero e ressentimento.
O ponto decisivo: ser homem não é o problema
O achado mais importante do artigo talvez seja o menos intuitivo para o debate público: a centralidade da identidade masculina foi um indicador fraco de toxicidade. Em português claro: considerar “ser homem” uma parte importante da própria identidade não significa, por si só, ser misógino, homofóbico, narcisista ou favorável à dominação social. Alguns perfis moderados tinham níveis de identificação masculina semelhantes aos do perfil tóxico hostil, mas com muito menos preconceito e hostilidade.
Esse ponto separa duas coisas frequentemente emboladas. Uma coisa é masculinidade como pertencimento, estilo, papel social, modo de se orientar no mundo. Outra é masculinidade como sistema defensivo: uma couraça feita de ressentimento, medo de humilhação, necessidade de controle e hostilidade contra tudo o que ameaça uma imagem frágil de virilidade. O problema não é o homem que se reconhece como homem. É o homem cuja masculinidade precisa de inimigos para continuar de pé -- o que, por sinal, se transforma em problema mesmo quando estamos falando de mulheres que elegem homens como inimigo permanente.
Essa distinção muda a conversa. Se o problema fosse a masculinidade em si, a solução seria desmontá-la. Mas, se o problema está em combinações específicas de rigidez, dominação, preconceito, narcisismo e desregulação emocional, então a tarefa é separar masculinidades construtivas de masculinidades destrutivas. Força não precisa virar brutalidade. Autonomia não precisa virar isolamento. Proteção não precisa virar paternalismo. Ou, talvez, a questão seja simplesmente desfocar esses problemas de manifestações problemáticas de masculinidades e começar a tratá-las como “manifestações problemáticas, ponto”. Afinal, qualquer pessoa desregulada e bruta pode afetar negativamente quem está ao redor.


