Parabéns pelo texto. É raro encontrar um tratamento tão claro, equilibrado e empiricamente fundamentado de um tema que costuma ser sequestrado por slogans.
O que mais me chamou a atenção foi um aspecto do próprio debate público. A impressão frequentemente transmitida é que "masculinidade tóxica" se tornou um conceito tão elástico que acaba lançando suspeita sobre praticamente qualquer manifestação de masculinidade. Mas, quando um texto como o seu delimita o problema com precisão e mostra que os perfis realmente preocupantes representam uma minoria, a resposta costuma recuar para algo como: "Mas sempre estivemos falando apenas desses casos". Parece haver uma curiosa expansão e contração do conceito conforme o contexto da discussão.
Seu artigo mostra que o caminho mais produtivo é justamente o oposto: substituir categorias morais amplas por perfis psicológicos identificáveis e mensuráveis.
Como desdobramento, seria muito interessante ver um estudo análogo com mulheres, utilizando indicadores equivalentes de preconceito, hostilidade, narcisismo, dominância social, rigidez de papéis e outros traços relevantes. Não para estabelecer uma competição entre os sexos, mas para verificar até que ponto homens e mulheres diferem — ou se aproximam — quando analisados pelo mesmo critério e com o mesmo rigor metodológico.
Super obrigado por reconhecer minha tentativa de ser moderado num assunto polarizado pra todos os lados.
Desde que ouvi pela primeira vez o termo "masculinidade tóxica" um radar começou a tocar na minha cabeça. O texto já nasce banalizado, na minha opinião. Digo, teoricamente ele pode até se referir a comportamentos realmente tóxicos, mas, na prática, na universidade, nos livros e no cotidiano o termo é usado sempre de forma exagerada.
Vou falar uma coisa que pode ser até um tanto estranha e radical para alguns, mas a impressão que eu tenho é que o aumento de mulheres na academia acabou intelectualizando e transformando em debate acadêmico o que antes se restringia a discussões de relacionamento e a percepções femininas sobre o sexo masculino. Digo isso não como demérito, mas como caracterização apenas. Daria pra dizer que grande parte dos tropos debatidos por uma academia predominantemente masculina também tem a ver com o que é mais prevalente no universo masculino.
Mesmo em aulas eu percebo isso. As alunas, no início da faixa etária dos 20 anos, todas já namoraram psicopatas e narcisistas. É simplesmente impossível que essas alunas todas tenham namorado pessoas com esses transtornos. A prevalência populacional de transtornos de personalidade é baixa. Não faz sentido que cada mulher já tenha se relacionado com um desses homens -- só se esses homens, a minoria entre homens, estiverem traçando todas as mulheres de uma maneira surpreendente (prova do moralismo envolvido nesses debates é o fato de que uma mulher lendo minha última frase vai certamente reclamar pelo uso da palavra "traçar").
"Mas sempre estivemos falando apenas desses casos" hahahaha. Sim, eu já ouvi isso de algumas pessoas. O problema é que isso obviamente não é mentira. Basta assistir a qualquer entrevista. Naquele debate do Cazarré na Globo News a psicanalista claramente diz que todos os homens são perigosos, que "nem todo homem mas sempre um homem". O alvo do jargão masculinidade tóxica claramente não são apenas a minoria da minoria de homens com comportamentos claramente violentos, tóxicos e etc. Qualquer desconforto na interação com o sexo masculino já vale a classificação marota que vitimiza e ao mesmo tempo transforma em heroínas todas as mulheres.
Pensando agora, isso é meio parecido com o uso e abuso de diagnósticos. Em muitos nichos, na prática, uma criança levada não é apenas levada, ela tem transtorno opositor desafiador.
Parabéns pelo texto. É raro encontrar um tratamento tão claro, equilibrado e empiricamente fundamentado de um tema que costuma ser sequestrado por slogans.
O que mais me chamou a atenção foi um aspecto do próprio debate público. A impressão frequentemente transmitida é que "masculinidade tóxica" se tornou um conceito tão elástico que acaba lançando suspeita sobre praticamente qualquer manifestação de masculinidade. Mas, quando um texto como o seu delimita o problema com precisão e mostra que os perfis realmente preocupantes representam uma minoria, a resposta costuma recuar para algo como: "Mas sempre estivemos falando apenas desses casos". Parece haver uma curiosa expansão e contração do conceito conforme o contexto da discussão.
Seu artigo mostra que o caminho mais produtivo é justamente o oposto: substituir categorias morais amplas por perfis psicológicos identificáveis e mensuráveis.
Como desdobramento, seria muito interessante ver um estudo análogo com mulheres, utilizando indicadores equivalentes de preconceito, hostilidade, narcisismo, dominância social, rigidez de papéis e outros traços relevantes. Não para estabelecer uma competição entre os sexos, mas para verificar até que ponto homens e mulheres diferem — ou se aproximam — quando analisados pelo mesmo critério e com o mesmo rigor metodológico.
Super obrigado por reconhecer minha tentativa de ser moderado num assunto polarizado pra todos os lados.
Desde que ouvi pela primeira vez o termo "masculinidade tóxica" um radar começou a tocar na minha cabeça. O texto já nasce banalizado, na minha opinião. Digo, teoricamente ele pode até se referir a comportamentos realmente tóxicos, mas, na prática, na universidade, nos livros e no cotidiano o termo é usado sempre de forma exagerada.
Vou falar uma coisa que pode ser até um tanto estranha e radical para alguns, mas a impressão que eu tenho é que o aumento de mulheres na academia acabou intelectualizando e transformando em debate acadêmico o que antes se restringia a discussões de relacionamento e a percepções femininas sobre o sexo masculino. Digo isso não como demérito, mas como caracterização apenas. Daria pra dizer que grande parte dos tropos debatidos por uma academia predominantemente masculina também tem a ver com o que é mais prevalente no universo masculino.
Mesmo em aulas eu percebo isso. As alunas, no início da faixa etária dos 20 anos, todas já namoraram psicopatas e narcisistas. É simplesmente impossível que essas alunas todas tenham namorado pessoas com esses transtornos. A prevalência populacional de transtornos de personalidade é baixa. Não faz sentido que cada mulher já tenha se relacionado com um desses homens -- só se esses homens, a minoria entre homens, estiverem traçando todas as mulheres de uma maneira surpreendente (prova do moralismo envolvido nesses debates é o fato de que uma mulher lendo minha última frase vai certamente reclamar pelo uso da palavra "traçar").
"Mas sempre estivemos falando apenas desses casos" hahahaha. Sim, eu já ouvi isso de algumas pessoas. O problema é que isso obviamente não é mentira. Basta assistir a qualquer entrevista. Naquele debate do Cazarré na Globo News a psicanalista claramente diz que todos os homens são perigosos, que "nem todo homem mas sempre um homem". O alvo do jargão masculinidade tóxica claramente não são apenas a minoria da minoria de homens com comportamentos claramente violentos, tóxicos e etc. Qualquer desconforto na interação com o sexo masculino já vale a classificação marota que vitimiza e ao mesmo tempo transforma em heroínas todas as mulheres.
Pensando agora, isso é meio parecido com o uso e abuso de diagnósticos. Em muitos nichos, na prática, uma criança levada não é apenas levada, ela tem transtorno opositor desafiador.