Venezuela, soberania e a nova Guerra Fria
Em três de janeiro de 2026, os Estados Unidos invadiram a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro e sua esposa.
Em três de janeiro de 2026, os Estados Unidos invadiram a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro e sua esposa. A operação ocorreu na madrugada, com o casal ainda dormindo. O paralelo imediato é o Panamá, em 1989, quando Washington arrancou Manuel Noriega do poder sob as acusações, por um júri federal, de extorsão, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro; além de ilegitimidade política e ameaça regional. Trinta e seis anos depois, o gesto se repete.
O movimento era previsível porque a Venezuela havia se tornado um ponto de saturação: um regime instaurado por fraude, internamente colapsado, internacionalmente contestado, economicamente falido apesar de seu grande potencial petrolífero — e, nos últimos anos, atravessado por influências e interesses que ultrapassam a retórica doméstica do chavismo. O país deixou de ser apenas uma tragédia nacional. Tornou-se também um problema hemisférico, uma peça incômoda num tabuleiro que nunca foi particularmente estável.
Esse tabuleiro instável produz leituras apressadas e princípios de ocasião. Não se entende o três de janeiro com o vocabulário curto dos guetos ideológicos — o que comemora a queda de um tirano sem pensar no vácuo de poder que isso gera, e o que descobre uma devoção súbita à soberania e ao direito internacional.
O que aconteceu ali se insere numa cascata de tendências mais amplas: uma disputa de poder em que normas funcionam por conveniência e em que o peso real das coisas — interesses, medos, capacidade de coerção — costuma aparecer apenas depois, quando já é tarde para fingir surpresa.
Uma “normalidade” difícil de interromper
Muito antes de três de janeiro, a Venezuela já vivia sob um regime de exceções prolongadas. Eleições sucessivamente contestadas, tribunais progressivamente domesticados, opositores presos, mortos, silenciados ou empurrados para o exílio, centros de detenção operando à margem de qualquer escrutínio público — nada disso aconteceu de forma abrupta. O colapso foi lento, administrativo, jurídico, cotidiano. Um colapso gradual tende a perder contorno; quando se instala por completo, já parece parte da paisagem.
Fora da Venezuela, o regime de Nicolás Maduro era descrito por meio de adjetivos conhecidos — autoritário, problemático, disfuncional — quase nunca por verbos de ação. Relatórios se acumulavam, condenações formais eram emitidas, sanções iam e vinham — tudo feito muito timidamente, diga-se de passagem. O efeito prático disso tudo sempre foi limitado. A linguagem da soberania nacional funcionava como um dispositivo de contenção moral: permitia reconhecer o desastre venezuelano sem firmar compromissos mais profundos. A exceção durou tempo suficiente para deixar de ser tratada como tal.
Havia razões para essa tolerância estendida. Países vizinhos temiam a instabilidade; governos ideologicamente próximos preferiam enquadrar o colapso como resultado de pressões externas; potências mais distantes calculavam custos com frieza paralisante. O sofrimento venezuelano, prolongado e pouco espetacular, tornava-se administrável à distância. A crise existia, mas não exigia ruptura imediata.
Quando a ruptura veio, a reação dentro do país revelou uma fratura exposta. Em diversas cidades, muitos venezuelanos celebraram a saída de Maduro — não como um endosso automático do que viria depois, mas como alívio imediato, quase físico, diante do fim de um poder percebido como ilegítimo e opressivo. Essa reação não resolve o dilema jurídico da operação americana, mas complica qualquer leitura confortável. Ela lembra que há uma diferença profunda entre a legitimidade medida por normas abstratas e aquela sentida por quem vive sob um dado regime político.
Antes desse grito nas ruas, houve anos de silêncio.
E foi nesse silêncio que o choque final se tornou possível.
Quando as regras aprendem a falar
A reação internacional ao caso venezuelano expôs algo que vinha se formando há anos: o deslocamento do papel das normas no sistema global. Em um mundo cada vez menos organizado por consensos duradouros, princípios como soberania, legalidade internacional e autodeterminação não desaparecem, mas mudam de função. Deixam de operar como freios automáticos e passam a circular como linguagem estratégica, invocada conforme o contexto, o interesse e o alinhamento de quem fala.
Esse deslocamento é parte do cenário mais amplo da nova Guerra Fria. Diferentemente da anterior, ela não se estrutura em blocos ideológicos rígidos nem em confrontos diretos previsíveis. É fragmentada, oportunista, assimétrica. Conflitos locais tornam-se campos de teste; normas internacionais, instrumentos de legitimação seletiva. Em períodos de estabilidade relativa, essas normas funcionam como verniz civilizatório, um sinal de que regras funcionam bem para manter a paz. Quando a competição entre grandes potências se intensifica, o verniz não chega a desaparecer, mas muda o uso que fazem dele.
Esse uso diferente muitas vezes se expressa como uma espécie de racionalização a posteriori de ações cujo motivador central é o poder material para fazê-lo. Os exemplos são abundantes em época de conflito. O princípio de soberania nacional invocado agora para proteger a Venezuela, por exemplo, não parece ter sido usado, por esses mesmos personagens do tabuleiro geopolítico, para proteger a Ucrânia das incursões russas. Nesse ambiente, o direito internacional raramente decide alguma coisa. Ele enquadra, adorna, justifica. É explícito quando convém, flexível quando atrapalha, esquecido quando os limites se tornam reais.
Às vezes, agir é a medida mais racional
A decisão americana não emergiu de um surto moral tardio ou cabeça quente, mas de um cálculo frio de custo-benefício — algo comum em geopolítica. Por anos, o regime venezuelano foi tolerado porque seus custos pareciam previsíveis e, sobretudo, administráveis. O colapso interno produzia sofrimento, migração, instabilidade difusa — nada disso, isoladamente, alterava o equilíbrio estratégico regional. Em algum ponto, no entanto, esse equilíbrio começou a se mover.
A Venezuela deixou de ser apenas um Estado falido para se tornar um espaço funcional para interesses externos estrategicamente problemáticos do ponto de vista yankee. A dependência crescente de acordos energéticos opacos com a China, lastreados em petróleo e negociados fora de qualquer escrutínio público; a cooperação militar contínua com a Rússia, responsável pela manutenção de sistemas estratégicos e pela presença técnica permanente no país; e a consolidação do território venezuelano como corredor logístico do narcotráfico transnacional, mencionada reiteradamente em relatórios internacionais, transformaram o país em um ativo instável no tabuleiro hemisférico. O problema já não era apenas o que acontecia dentro da Venezuela, mas o que podia ser feito a partir dela.
Nesse contexto, a intervenção passou a competir com a inação como opção racional. Não por ser menos arriscada, mas por parecer menos custosa a longo prazo. A permanência do regime implicava aceitar um foco permanente de desordem estratégica; sua remoção prometia, ao menos em tese, reordenar o espaço regional, sinalizar limites a rivais externos e recuperar margem de controle. A decisão não foi tomada apesar das regras, mas à luz de sua maleabilidade.
É nesse ponto que certos gestos deixam de parecer excepcionais. Quando normas funcionam como linguagem e precedentes não produzem punição efetiva, a força passa a ser tratada como mais uma variável — não exatamente como último recurso moral, mas como último instrumento disponível. Em determinado momento, agir deixou de parecer uma transgressão intolerável e passou a soar, para quem decide, como a opção menos pior entre alternativas imperfeitas.
A sedução das analogias históricas
Diante de decisões que envolvem força, a tentação da analogia histórica é quase irresistível. Ela oferece clareza instantânea: se algo parece vagamente com o 1939-1945, fica fácil para cada esfera de influência decidir seu vilão, seu mocinho, o que pode e o que não pode ser feito.
O problema é que analogias encurtam mais do que explicam. Transformam contextos distintos em lições prontas, dispensando o trabalho mais indigesto de pensar o presente nos seus próprios termos.
A Alemanha nacional-socialista do entreguerras é o exemplo recorrente. O argumento sugere que regimes ilegítimos devem ser contidos antes que se tornem ameaças maiores. Mas essa leitura ignora um detalhe decisivo: a Alemanha de Hitler não foi confrontada por ser autoritária, e sim por ter expandido sua violência para além de suas fronteiras. O gatilho a agressão externa, não a política doméstica.
Analogias funcionam bem como retórica pública porque organizam emoções e distribuem papéis com rapidez. Elas funcionam mal como guia de ação porque substituem análise por reconhecimento. No caso venezuelano, recorrer a paralelos históricos serve menos para esclarecer a decisão americana do que para torná-la inteligível dentro de narrativas já conhecidas. A história, nesse ponto, torna-se um espelho conveniente onde cada lado reconhece apenas aquilo que já esperava ver.
O espelho raramente devolve o que não queremos ver
As reações à intervenção americana na Venezuela seguiram linhas previsíveis. Para uns, a ênfase recaiu sobre a ilegitimidade do regime de Maduro — eleições fraudadas, repressão sistemática, colapso institucional — como se esses fatos, por si sós, resolvessem a questão da forma e do precedente. Para outros, a palavra-chave passou a ser soberania nacional, acompanhada de uma súbita devoção ao direito internacional, agora tratado como princípio inviolável. O curioso é que raramente esses vocabulários permanecem estáveis quando os atores mudam de lugar.
O mesmo público que invoca a soberania para condenar a ação americana mostrou menos entusiasmo quando a Rússia atravessou as fronteiras da Ucrânia. Da mesma forma, a denúncia do “imperialismo” costuma ser seletiva: aparece com vigor diante de Washington, mas perde nitidez quando confrontada com outras histórias de expansão e coerção. Não se trata de incoerência acidental, mas de alinhamento. Princípios funcionam como filtros morais: iluminam certos fatos e mantêm outros convenientemente fora de foco.
Nesse sentido, o debate em torno da Venezuela diz menos sobre a Venezuela do que sobre quem fala dela. As analogias escolhidas, os princípios lembrados, os silêncios mantidos — tudo isso compõe um mapa bastante fiel de identidades políticas prévias. A geopolítica aparece então como uma miscelânea de interesses, narrativas e vieses, onde fatos objetivos servem de verniz para posições já tomadas. O espelho está ali. O que cada um vê refletido não é o mundo como ele é, mas o mundo como precisa ser para continuar fazendo sentido.


