“Vocês estão começando a perder nossa confiança”
O que um relatório de 2026, encabeçado por Paul Boghossian, sugere sobre a politização das humanidades, com destaque para a antropologia
No ensino médio, meu exemplo de conflito entre crença e ciência era o criacionismo. Conhecia pessoas que, para preservar uma leitura literal do Gênesis, precisavam negar não apenas a evolução, mas evidências elementares da geologia e da paleontologia. Certa vez, um colega católico de convicções criacionistas, que dizia não acreditar em dinossauros, me xingou — pensei que me agrediria — depois que lhe entreguei uma edição da Superinteressante sobre o assunto. Para conservar aquela crença, era preciso desacreditar tudo o que a ameaçava.
Entrei na universidade imaginando que encontraria um cenário diferente. Estava enganado. Encontrei pessoas mais informadas, certamente, mas não necessariamente menos dispostas a proteger suas convicções de evidências inconvenientes. No curso de Psicologia, descobri que ideologias políticas também podiam delimitar quais perguntas eram legítimas, quais resultados eram toleráveis e quais teorias deveriam ser rejeitadas antes mesmo de serem examinadas. Quando os dados confirmavam a visão de mundo dominante, eram tratados como ciência; quando a contrariavam, era a ciência que passava a ser suspeita.
Em 2026, relatórios, pesquisas e controvérsias acumuladas tornam difícil descartar essa suspeita como simples ressentimento conservador. Um relatório encabeçado por Paul Boghossian oferece um bom teste do problema — inclusive pelas reações que provocou.
Evidência preliminar, diagnóstico grave
O documento em questão é o Report on the State of Scholarship in the Humanities and the Humanistic Social Sciences, encomendado pelos dirigentes das universidades Vanderbilt e Washington e entregue, em abril de 2026, por uma comissão de dez acadêmicos coordenada pelo filósofo Paul Boghossian. O grupo examinou seis áreas: filosofia, antropologia, sociologia, história, estudos literários e musicologia.
O relatório não afirma que toda pesquisa produzida nesses campos seja ideológica ou intelectualmente vazia. De fato, há trabalhos rigorosos em todas as disciplinas examinadas e o relatório reconhece isso. Mais precisamente, seu diagnóstico é que critérios políticos teriam passado, em alguns setores, a interferir na escolha das perguntas, na avaliação dos resultados e na definição do que merece ser publicado. A antropologia recebe o veredito mais severo. Nela, os autores identificam uma deterioração disseminada dos padrões acadêmicos, acompanhada pela rejeição da objetividade e pela punição do dissenso em temas politicamente sensíveis -- enfim, nada do que qualquer estudante de humanas e ciências sociais (e leitores do Xibolete) não esteja familiarizado.
É uma acusação grave, sustentada por artigos, declarações de associações profissionais, episódios de cancelamento e casos de pesquisadores hostilizados. Minhas próprias evidências anedóticas são extremamente compatíveis com os resultados do relatório. Mas, olhando mais tecnicamente para o documento, há um descompasso entre a amplitude da conclusão e a natureza das provas. Por exemplo, o próprio relatório admite que seus exemplos ilustram fenômenos, mas não estabelecem sua prevalência. Não há amostragem representativa da produção antropológica nem comparação sistemática capaz de demonstrar que o campo seja excepcionalmente problemático. O relatório mostra indícios clínicos relevantes da presença de uma doença, mas deixa de fora as evidências mais confiáveis -- o que não chega a ser uma falha fatal.
A defesa confirma a acusação
Quem menciona esses problemas do relatório de maneira mais contundente é o antropólogo Agustín Fuentes. Em seu artigo no Chronicle of Higher Education, observa que o relatório cita uma parcela minúscula de uma disciplina composta por tradições, métodos e subáreas muito diferentes. Também aponta omissões. Por exemplo, ao discutir um estudo sobre mulheres caçadoras, o documento destaca uma crítica, mas ignora tanto a correção publicada pelas autoras quanto o restante da controvérsia.
Bom, é verdade, o relatório tem falhas e limitações. Mas o que Fuentes faz por toda sua crítica é uma mistura de demagogia com ilusão de espelhos. “Veja bem, existem várias antropologias” -- como se por isso fosse muito difícil atestar que os membros das áreas mais culturalistas dizem para quem quer ouvir que a verdade é relativa e que a ciência é um projeto de verdade eurocêntrica; a própria iniciativa de dar sonoridade às vozes indígenas mundo afora é resultado desse tipo de noção. “Veja bem, temos discussão e revisão por pares”, ignorando que numa área enviesada tanto a discussão quanto a revisão por partes estarão enviesados.
Fuentes nega ter conhecimento de qualquer antropólogo que tenha seu trabalho prejudicado por influência de ideologia. Só que, em outro artigo, publicado na revista Science, o antropólogo defendeu explicitamente que cientistas devem assumir seu papel como atores políticos. Ele diz sem rodeios em todo lugar que a ciência deve tornar o mundo melhor e, para isso, clama que pesquisadores assumam o papel de militantes políticos. Não consigo imaginar que seu desejo inclua pessoas de direita e esquerda assumindo esse papel. Sabemos muito bem que “tornar o mundo melhor” em novilíngua significa assumir uma postura guiada por uma ótica de esquerda e quase sempre identitária.
A resposta da American Anthropological Association seguiu um caminho parecido. Em uma nota oficial, a presidente da associação, Carolyn Rouse, distinguiu reflexividade de relativismo e cobrou amostragem, consulta à disciplina e atenção à sua diversidade interna. Em suma, cobrou um padrão de prova rigorosíssimo para algo que cientistas sociais falam sem medo algum sempre que podem, para algo que pode ser verificado facilmente em qualquer aula de graduação. A ironia da situação é que, numa longa entrevista ao Chronicle, Rouse demonstrou ainda mais involuntariamente do que Fuentes a contradição de sua argumentação.
Além de acusar os autores do relatório coordenado por Boghossian de terem usado inteligência artificial, ela cometeu a gafe de assumir nunca ter ouvido falar em Joseph Henrich, o antropólogo famosíssimo que apoia o documento. Ao longo da entrevista, foi propositalmente reticente diante de todas as perguntas cujas óbvias respostas a colocariam em maus lençois. Por exemplo, ela evitou responder se concordava com a afirmação de um ex-presidente da associação de antropologia de que o projeto político da disciplina seria “desafiar o senso comum do capitalismo de consumo”. Quando questionada sobre o cancelamento, em 2023, de um painel dedicado ao sexo biológico, afirmou que, para início de conversa, jamais deveria ter sido aceito o trabalho e comparou a ideia de dois sexos à astrologia. Diante de uma pesquisa mostrando que o desacordo entre antropólogos forenses sobre a existência de dois sexos é grande o suficiente para vetar a narrativa de consenso sobre a sua não binariedade, Rouse, numa incrível prova de ceticismo seletivo, simplesmente respondeu que não confia em pesquisas de opinião -- a velha estratégia de minar toda uma área, toda uma tradição metodológica só para descredibilizar um uso específico.
A tentativa de negar o relatório acabou demonstrando algo ainda pior: o viés e a rocambolia argumentativa alcançaram a liderança da disciplina e estão tão enraizados no campo que seus membros são incapazes de notar.
O que mostram as evidências
O relatório não está sozinho no que descreve. Um levantamento com cerca de oitocentos psicólogos sociais e da personalidade encontrou forte homogeneidade política e uma disposição inquietante para discriminar colegas conservadores: aproximadamente um quarto dos participantes admitiu que poderia prejudicá-los na avaliação de projetos, e mais de um terço, na seleção de participantes para simpósios. Outra pesquisa, realizada com professores de Psicologia, encontrou um fenômeno complementar: quanto mais um docente acreditava em conclusões consideradas tabu, maior era sua tendência a ocultar essa crença. Essa autocensura pode produzir falsos consensos, porque as posições sobrevivem em privado enquanto desaparecem do debate público.
A influência ideológica não precisa assumir a forma grosseira de falsificação de dados. Uma ampla revisão sobre diversidade política na psicologia social descreveu mecanismos mais discretos: valores podem ser incorporados às perguntas e aos métodos, assuntos politicamente inconvenientes deixam de ser investigados e explicações alternativas desaparecem porque quase ninguém no campo está disposto a defendê-las. Um modelo posterior de viés político nas ciências sociais propôs que esse efeito pode atravessar todo o processo científico, influenciando a escolha do tema, o desenho do estudo, a interpretação dos resultados e sua divulgação. Esses trabalhos oferecem sobretudo sínteses teóricas, não estimativas da frequência do problema. Sua importância está em mostrar como o viés pode operar sem fraude e até sem intenção consciente.
A literatura sobre gênero na academia oferece um teste concreto da capacidade de incorporar resultados inconvenientes. Uma colaboração adversarial que examinou centenas de estudos encontrou desvantagens persistentes para mulheres em alguns domínios, mas paridade contemporânea em financiamento, publicação e cartas de recomendação. Já cinco experimentos com 873 docentes mostraram que candidatas igualmente qualificadas foram preferidas aos candidatos homens, numa proporção aproximada de dois para um, em contratações acadêmicas simuladas. Isso mostra que narrativas politicamente atraentes podem ser verdadeiras em certos contextos e falsa em outros.
Apesar de não medirem diretamente a politização da antropologia, tomadas em conjunto, porém, essas pesquisas dão respaldo independente aos mecanismos descritos pelo relatório: homogeneidade política, discriminação ideológica, autocensura, falsos consensos e escrutínio desigual das conclusões. O documento ainda não demonstrou o tamanho do problema, nem que a antropologia seja excepcionalmente vulnerável a ele. Mas seus críticos já não podem afirmar seriamente que se trata de um fenômeno imaginário ou sustentado apenas por anedotas selecionadas.
Um teste de penetração intelectual
A demonstração qualitativa mais célebre desses mecanismos ocorreu entre 2017 e 2018, quando Peter Boghossian, Helen Pluckrose e James Lindsay submeteram vinte manuscritos deliberadamente fraudulentos a periódicos de estudos de gênero, raça, sexualidade e áreas próximas. Quando o projeto foi interrompido, sete artigos haviam sido aceitos — quatro deles já publicados —, seis tinham sido abandonados após rejeições e outros sete continuavam em alguma etapa de avaliação. Os textos combinavam dados inventados, argumentos propositalmente defeituosos e conclusões ajustadas às expectativas morais atribuídas aos campos examinados. Em alguns casos, revisores não apenas deixaram de detectar a fraude como recomendaram alterações que acentuavam seu enquadramento político. Você pode ler mais detalhes aqui.
O experimento demonstrou algo importante: diferentes editores e pareceristas aceitaram como conhecimento trabalhos sem fundamento porque eles reproduziam linguagem, pressupostos e conclusões reconhecíveis como legítimos (a tal da novilíngua acadêmica politicamente correta). Não se tratou de um único editor descuidado, mas de falhas distribuídas por vários periódicos. Se a revisão por pares deveria funcionar como filtro contra argumentos ruins, o alinhamento moral dos manuscritos parece ter facilitado sua passagem. Nesse sentido, o projeto revelou uma vulnerabilidade real: determinados campos podiam ser enganados por autores que aprendessem a falar sua língua política.
Mas o experimento não permite calcular a extensão dessa vulnerabilidade. Uma reconstrução posterior de seu desenho observou que os periódicos não foram selecionados aleatoriamente, não houve grupo de comparação e os autores aperfeiçoaram os manuscritos a partir das rejeições e dos pareceres recebidos. Também não sabemos quantos artigos fraudulentos seriam aceitos em outras áreas, nas quais revisores igualmente precisam presumir que os dados apresentados não foram inventados. Os “Estudos de Ressentimento” foram, portanto, um teste de penetração intelectual, não um levantamento epidemiológico da academia. Provaram que certas portas podiam ser abertas; não disseram quantas portas, naquela disciplina ou nas demais, utilizavam a mesma fechadura.
O mecanismo e a medida
O relatório coordenado por Paul Boghossian não demonstra que a antropologia tenha sido inteiramente capturada pela política, nem que seus problemas sejam exclusivos ou mais graves do que os de outras disciplinas. Seus casos não foram obtidos por amostragem representativa; suas comparações não permitem medir prevalência; suas evidências tampouco sustentam um atestado de óbito para todo um campo. Nesse sentido, os críticos vencem a discussão estatística: ainda não sabemos até onde a politização chegou.
Eles perdem, porém, a discussão sobre sua existência. Estudos independentes já identificaram homogeneidade política, disposição para discriminar dissidentes, autocensura e mecanismos pelos quais valores ideológicos podem atravessar a produção científica. Os “Estudos de Ressentimento” mostraram que manuscritos moralmente alinhados podiam atravessar diferentes instâncias da revisão por pares. E as reações ao relatório revelaram que a mistura entre compromisso político e autoridade científica alcança posições relevantes na liderança institucional. O relatório acertou no mecanismo, ainda que tenha exagerado na medida.
Entrei na universidade acreditando que educação e inteligência funcionariam como antídotos contra o dogmatismo. Descobri que também podem fornecer instrumentos mais sofisticados para racionalizá-lo. A pergunta séria, portanto, já não é se existem setores da academia nos quais certas convicções são protegidas de evidências inconvenientes. É quanto esse comportamento se disseminou — e por que disciplinas especializadas em revelar os pontos cegos das outras culturas parecem tão pouco dispostas a investigar os seus próprios.


