O custo geopolítico de esperar
Por que, para o historiador Niall Ferguson, a intervenção na Venezuela foi a menos imperfeita das opções disponíveis
No dia três de janeiro de 2026, o dia mal tinha raiado e já havia notícias da captura de Nicolás Maduro e de sua primeira-dama pelas forças policiais e militares dos Estados Unidos. O consenso sobre o acontecido foi proclamado igualmente cedo: blogueiros, mídias sociais, editoriais, acadêmicos e diplomatas denunciaram a ação como ilegal, imperialista e uma afronta à soberania nacional.
Uma voz, no entanto, divergiu.
Niall Ferguson, historiador e autor de calhamaços sobre a ascensão e queda de impérios, em entrevista ao The Free Press, afirmou que a bem sucedida operação dos EUA de Trump foi a melhor coisa que poderia ter acontecido à Venezuela.
O que exatamente ele quis dizer com isso, e por que sua leitura diverge tão radicalmente da maioria? A resposta envolve um misto de fatos e interpretações raramente considerados por aqueles que são tentados por diagnósticos fáceis.
Escolhas imperfeitas em cenários degradados
O ponto de partida de Niall Ferguson é que respiramos numa atmosfera cultural contaminada por política do pior tipo. Em um cenário assim, qualquer análise parece visar defender um lado e condenar o outro — ambos já decididos de antemão. Ignorar a concretude do cenário no qual os eventos geopolíticos se desenrolam torna o debate menos centrado em explicações, jogando-o na fogueira das condenações morais e dos apetites ideológicos. Não é assim que se evita catástrofes.
O historiador, assim, rejeita a maneira como o debate costuma ser enquadrado — intervenção versus soberania, legalidade internacional versus imperialismo — por considerá-la uma abstração fácil demais frente a situações concretas mais complexas. A história, insiste, raramente oferece escolhas morais limpas. O que ela oferece são conjuntos restritos de opções imperfeitas, entre as quais é preciso escolher a menos destrutiva.
A Cuba do pós-1959 é um bom exemplo. A decisão americana de não intervir diretamente para derrubar Fidel Castro — celebrada à época como respeito à autodeterminação e prudência estratégica — resultou, em retrospecto, não em estabilidade soberana, mas em seis décadas de autoritarismo, empobrecimento crônico e dependência externa. Em 1962, Cuba quase protagonizou uma hecatombe nuclear ao permitir a instalação de mísseis nucleares soviéticos na ilha. Às vezes, a omissão leva a problemas maiores do que aqueles que queriam ser evitados.
Confundir omissão com neutralidade é um dos erros centrais do liberalismo pós-Guerra Fria. Em contextos de colapso institucional avançado, não agir é agir. No caso de estados capturados por regimes autoritários a proporção do problema aumenta porque raramente esses governos se autocorrigem; eles tendem a se fossilizar. O custo humano e regional dessa fossilização costuma ser pago ao longo de décadas, não em manchetes de uma semana. Por isso, conflitos agora são noticiados como ações em direção à guerra, mas a omissão só pode ser diagnosticada como passo em direção a um conflito maior décadas depois. É uma assimetria que pode transformar em vilão imediato aquele que salvou o jogo no longo prazo.
É nesse enquadramento que Ferguson descreve a ação americana na Venezuela como a melhor das opções disponíveis. Num mundo ideal, ela não precisaria ocorrer. Mas no mundo real, esperar pode ser mais desastroso.
Quando a estabilidade se transforma em permanência
Se Cuba é o caso inaugural dos efeitos deletérios da paz mal calculada, a América Central funciona como sua confirmação empírica. A Nicarágua dos anos 1980 é um exemplo. A hesitação americana — travestida de prudência jurídica e cansaço pós-Vietnã — permitiu a consolidação de um regime que, décadas depois, ainda governa por meio da repressão, da fraude eleitoral e do controle institucional.
A promessa de que a pressão internacional moderaria o poder revelou-se ilusória. Regimes desse tipo se tornam cada vez mais restritivos. Essa é uma forma eficiente de autoperpetuação.
Passado o momento inicial de vulnerabilidade, regimes desse tipo lançam seus tentáculos: capturam tribunais, neutralizam a imprensa, transformam eleições em rituais vazios. A expectativa liberal de uma transição gradual — baseada em sanções, condenações diplomáticas e negociações intermináveis — leva ao erro elementar de dar mais tempo para o poder se instalar.
É esse mesmo mecanismo de sobrevivência institucional que Ferguson identifica na Venezuela.
A Venezuela não é exceção, é uma espécie de culminação de uma cascata de fatores. O país que já foi uma das economias mais ricas da região tornou-se, sob o chavismo, um Estado funcionalmente colapsado. A erosão institucional veio acompanhada de empobrecimento em massa e de uma crise migratória que atravessou fronteiras e desestabilizou vizinhos.
Os limites históricos da força
Entretanto, às vezes, agir pode levar a desastres. Vietnã, Iraque e Afeganistão aparecem como advertências recorrentes sobre os limites da força quando acompanhada de ambição ilimitada. O erro nesses casos não foi a intervenção em si, mas tentar transformar intervenções militares em projetos de engenharia social — exportar instituições, culturas políticas e expectativas que levaram séculos para se formar em outros contextos.
É por isso que Ferguson insiste numa distinção rara de se ver no debate público: a diferença entre intervenções maximalistas, voltadas à reconstrução de sociedades inteiras, e intervenções limitadas, cujo objetivo é remover um bloqueio específico de poder. As primeiras tendem ao fracasso porque confundem capacidade militar com capacidade de mudar culturas de formas profundas. As segundas têm mais chances de funcionar pela sua concisão; elas não prometem mais do que podem cumprir — nesse sentido, a intervenção de Trump na Venezuela é gritantemente diferente das políticas militares realizadas por Bush e Obama.
Um exemplo é o Chile. A derrubada de Salvador Allende e o regime de Augusto Pinochet não são apresentados por Ferguson como um triunfo moral — longe disso. Ele reconhece a violência, a repressão e o trauma deixado pela ditadura. Ainda assim, insiste em algo que incomoda os críticos: a intervenção produziu, ao longo do tempo, uma transição para a democracia e uma economia relativamente estável. O contraste com regimes autoritários não contestados, que se prolongaram por gerações, é historicamente verificável — ainda que politicamente indigesto para quem pensa mais com as tripas do que com o cérebro.
Esse tipo de comparação não absolve crimes nem relativiza sofrimentos. A busca aqui é pela testagem de hipóteses históricas que possam auxiliar na compreensão do presente. A pergunta sóbria, aqui, não é se a intervenção é boa em abstrato, mas em comparação a quê. Quando a alternativa é a fossilização de um regime autoritário — que viola leis internacionais tanto quanto a ação americana — a balança histórica inclina-se de maneira óbvia.
É nesse ponto que a leitura de Niall Ferguson começa a incomodar até aliados ocasionais. Porque aceitar essa lógica exige abandonar a ideia reconfortante de que a história pune sempre a força e recompensa a contenção. Para Ferguson, os arquivos contam uma história menos edificante — e mais difícil de ignorar.
O custo de esperar e a assimetria da condenação
A leitura de Ferguson incomoda porque rompe com um conforto intelectual profundamente arraigado: a ideia de que não intervir é, por definição, a posição mais prudente e moralmente elevada. A história sugere algo menos elegante. Em certos contextos, a recusa em agir não preserva a paz — apenas a adia, enquanto as condições se deterioram. Ao aplicar esse raciocínio à Venezuela, Ferguson não oferece uma solução limpa, mas uma hipótese difícil de descartar: às vezes, o erro não está em agir demais, mas em esperar demais.


