Independente de concordar ou não com os pontos levantados no texto, quero parabenizar a coragem de trazer algo que discorda do mainstream acadêmico atual. Acredito no debate, na discordância aberta e pública, como essenciais para a produção científica continuar a caminhar.
Eu senti falta de referências de artigos e pesquisas que sustentassem os pontos trazidos pelo autor do texto. Acho que fragiliza a defesa das teses apresentadas, especialmente quando se fala em Filosofia da Ciência.
Esta é uma das publicações mais fracas que vi neste site. Farei alguns comentários curtos sobre os pontos levantados, já que não tenho tempo ou pretensão de comentar linha por linha.
Em primeiro lugar (e mais obviamente desonesto para qualquer leitor atento), é trivial encontrar imoralidades entre os expoentes de qualquer movimento cultural e intelectual, incluindo entre os expoentes das ideias conservadoras que fundamentam a reação intelectual sistemática ao conceito de gênero. Isso não serve de nada. Que pós-modernos tenham sido (em parte) uns degenerados morais é irrelevante para a discussão psiquiátrica recente que, como o próprio texto reconhece, tem boa aceitação entre os biólogos modernos. A ideia X não está errada simplesmente por ter sido originada na mente do indivíduo Y que possui defeito moral Z. Esse é um dos erros de raciocínio mais risíveis que alguém poderia cometer.
As discussões técnicas específicas da psiquiatria sobre o termo gênero (que incluem aspectos da representação mental que os indivíduos de uma sociedade possuem sobre uma pessoa) são suficientemente precisos, dado que comportamento e semiótica podem sim ser estudados de maneira global em uma sociedade.
Voltando-me à aceitação do conceito de gênero entre biólogos modernos, o texto em momento algum se presta a dialogar com o estado da arte, simplesmente se reduz a uma repetição de críticas bem conhecidas entre os cientistas sérios. Por exemplo, você não verá muitos biólogos defendendo o Money; se muito, verá alguns radicais das humanidades o defendendo, o que nos faz cair no fato bem conhecido de que há muitos ideólogos de esquerda na universidade, não na afirmação geral de que o gênero é um conceito falho em toda a ciência. Como muitos leitores daqui, estou plenamente ciente do problema sério que a esquerda oferece para a academia. Isso é completamente diferente de dizer que todos os trabalhos de gêneros são 'ideológicos', como sonham os conservadores anti-academia. O texto faz parecer que uma bióloga 'anti-woke' ser favorável ao conceito é algo anormal, o que não foi justificado com uma análise estatística da visão dos especialistas.
Sobre a 'dualidade corpo-mente', não é preciso ser um psicólogo para entender que há a necessidade de se construir um arcabouço conceitual / teórico para lidar com os fenômenos mentais, ainda que estes sejam fundamentalmente físicos. A mais básica lição de filosofia da ciência deveria ser suficiente para alguém entender que os fenômenos serem (em última análise) físicos não descarta a necessidade de diferentes camadas conceituais / metodológicas / epistêmicas. A psicologia existe independente da mente ser puramente biológica ou não, assim como a biologia existe independente da discussão sobre fisicalismo. Alguma forma de emergentismo epistêmico sempre aparece na filosofia da ciência atual. Não há nenhuma dualidade cartesiana aqui.
Por fim, a tal da zenergia é um análogo horroroso, um erro categórico claro. A energia em física é uma quantidade algébrica, não um ente físico por si só. O teorema da conservação de energia essencialmente mostra que um certo número se mantém constante apesar das transformações do sistema. É, portanto, uma quantidade ABSTRATA que representa uma informação estrutural sobre a física (simetria temporal). Não há a mais remota similaridade ontológica com a mente humana, que é um ente complexo e que inclui vários fenômenos emergentes. Assim sendo, a possibilidade de existirem categorias relacionadas ao (mas diferentes do) sexo na psique humana é perfeitamente plausível, ao contrário dessa tal zenergia espúria.
Oi, Lucas. Obrigado pelo comentário. A escolha do texto foi minha, como editor do site, não da Larissa, a tradutora. Mas eu defendo minha escolha por ser outra forma de dizer o que eu mesmo já disse em um capítulo para um volume organizado pelo Antonio Risério e no meu livro, "Mais Iguais que Os Outros": a distinção entre sexo e gênero é epistemicamente suspeita. Como eu disse lá, ela desrespeita o conselho platônico de "partir a natureza em suas juntas". Uma das minhas principais fontes é Marco del Giudice, um pesquisador de credenciais inquestionáveis.
Não concordo com alguns dos pontos do autor e suspeito que ele pode ter uma postura intolerante para com transexuais em geral, já que ele sequer menciona a outra parte da tipologia de Blanchard, e é justamente a parte que mais desafia a renovada intolerância que se criou no campo populista contra os transexuais como retaliação aos excessos do woke. Ele ignora, por exemplo, que um tratamento para a disforia de sexo (esse é o termo que eu prefiro) em muitos casos é a transição. O tratamento não pode ser sinônimo da doença.
Concordo com muitas das suas críticas, em especial sua lembrança de que reducionismo ontológico não é sinônimo de reducionismo teórico. Para quem confunde as duas coisas, meu desafio é sempre pedir que reformule a teoria da evolução em termos de ondas e partículas apenas, ou seja lá quais forem as entidades ontológicas mais básicas agora aceitas pela física. Dito isso, embora eu simpatize mais com os fisicalistas/materialistas/compatibilistas como Daniel Dennett (não sigo contudo o eliminativismo dos Churchlands), o debate sobre mente-corpo está longe de estar encerrado, como o autor do texto fez parecer.
Quanto à "zenergia", realmente a analogia foi meio malsucedida. Eu já propus duas diferentes em meus textos: uma distinção entre altura e estatura, tentando separar biologia de ambiente em cada um dos termos, e entre água e "úgua", em que "úgua" seria o fluido só quando em estado de turbulência, mais difícil de explicar. Essa segunda analogia é mais feliz, creio, porque reconhece as complexidades tocadas pelo termo "gênero", que eu concordo em abandonar como distinto de sexo e tratar como sinônimo.
Independente de concordar ou não com os pontos levantados no texto, quero parabenizar a coragem de trazer algo que discorda do mainstream acadêmico atual. Acredito no debate, na discordância aberta e pública, como essenciais para a produção científica continuar a caminhar.
Eu senti falta de referências de artigos e pesquisas que sustentassem os pontos trazidos pelo autor do texto. Acho que fragiliza a defesa das teses apresentadas, especialmente quando se fala em Filosofia da Ciência.
Eu faço o mesmo ponto do autor no meu livro "Mais iguais que os outros", trazendo referências. Abraço.
Esta é uma das publicações mais fracas que vi neste site. Farei alguns comentários curtos sobre os pontos levantados, já que não tenho tempo ou pretensão de comentar linha por linha.
Em primeiro lugar (e mais obviamente desonesto para qualquer leitor atento), é trivial encontrar imoralidades entre os expoentes de qualquer movimento cultural e intelectual, incluindo entre os expoentes das ideias conservadoras que fundamentam a reação intelectual sistemática ao conceito de gênero. Isso não serve de nada. Que pós-modernos tenham sido (em parte) uns degenerados morais é irrelevante para a discussão psiquiátrica recente que, como o próprio texto reconhece, tem boa aceitação entre os biólogos modernos. A ideia X não está errada simplesmente por ter sido originada na mente do indivíduo Y que possui defeito moral Z. Esse é um dos erros de raciocínio mais risíveis que alguém poderia cometer.
As discussões técnicas específicas da psiquiatria sobre o termo gênero (que incluem aspectos da representação mental que os indivíduos de uma sociedade possuem sobre uma pessoa) são suficientemente precisos, dado que comportamento e semiótica podem sim ser estudados de maneira global em uma sociedade.
Voltando-me à aceitação do conceito de gênero entre biólogos modernos, o texto em momento algum se presta a dialogar com o estado da arte, simplesmente se reduz a uma repetição de críticas bem conhecidas entre os cientistas sérios. Por exemplo, você não verá muitos biólogos defendendo o Money; se muito, verá alguns radicais das humanidades o defendendo, o que nos faz cair no fato bem conhecido de que há muitos ideólogos de esquerda na universidade, não na afirmação geral de que o gênero é um conceito falho em toda a ciência. Como muitos leitores daqui, estou plenamente ciente do problema sério que a esquerda oferece para a academia. Isso é completamente diferente de dizer que todos os trabalhos de gêneros são 'ideológicos', como sonham os conservadores anti-academia. O texto faz parecer que uma bióloga 'anti-woke' ser favorável ao conceito é algo anormal, o que não foi justificado com uma análise estatística da visão dos especialistas.
Sobre a 'dualidade corpo-mente', não é preciso ser um psicólogo para entender que há a necessidade de se construir um arcabouço conceitual / teórico para lidar com os fenômenos mentais, ainda que estes sejam fundamentalmente físicos. A mais básica lição de filosofia da ciência deveria ser suficiente para alguém entender que os fenômenos serem (em última análise) físicos não descarta a necessidade de diferentes camadas conceituais / metodológicas / epistêmicas. A psicologia existe independente da mente ser puramente biológica ou não, assim como a biologia existe independente da discussão sobre fisicalismo. Alguma forma de emergentismo epistêmico sempre aparece na filosofia da ciência atual. Não há nenhuma dualidade cartesiana aqui.
Por fim, a tal da zenergia é um análogo horroroso, um erro categórico claro. A energia em física é uma quantidade algébrica, não um ente físico por si só. O teorema da conservação de energia essencialmente mostra que um certo número se mantém constante apesar das transformações do sistema. É, portanto, uma quantidade ABSTRATA que representa uma informação estrutural sobre a física (simetria temporal). Não há a mais remota similaridade ontológica com a mente humana, que é um ente complexo e que inclui vários fenômenos emergentes. Assim sendo, a possibilidade de existirem categorias relacionadas ao (mas diferentes do) sexo na psique humana é perfeitamente plausível, ao contrário dessa tal zenergia espúria.
Oi, Lucas. Obrigado pelo comentário. A escolha do texto foi minha, como editor do site, não da Larissa, a tradutora. Mas eu defendo minha escolha por ser outra forma de dizer o que eu mesmo já disse em um capítulo para um volume organizado pelo Antonio Risério e no meu livro, "Mais Iguais que Os Outros": a distinção entre sexo e gênero é epistemicamente suspeita. Como eu disse lá, ela desrespeita o conselho platônico de "partir a natureza em suas juntas". Uma das minhas principais fontes é Marco del Giudice, um pesquisador de credenciais inquestionáveis.
Não concordo com alguns dos pontos do autor e suspeito que ele pode ter uma postura intolerante para com transexuais em geral, já que ele sequer menciona a outra parte da tipologia de Blanchard, e é justamente a parte que mais desafia a renovada intolerância que se criou no campo populista contra os transexuais como retaliação aos excessos do woke. Ele ignora, por exemplo, que um tratamento para a disforia de sexo (esse é o termo que eu prefiro) em muitos casos é a transição. O tratamento não pode ser sinônimo da doença.
Concordo com muitas das suas críticas, em especial sua lembrança de que reducionismo ontológico não é sinônimo de reducionismo teórico. Para quem confunde as duas coisas, meu desafio é sempre pedir que reformule a teoria da evolução em termos de ondas e partículas apenas, ou seja lá quais forem as entidades ontológicas mais básicas agora aceitas pela física. Dito isso, embora eu simpatize mais com os fisicalistas/materialistas/compatibilistas como Daniel Dennett (não sigo contudo o eliminativismo dos Churchlands), o debate sobre mente-corpo está longe de estar encerrado, como o autor do texto fez parecer.
Quanto à "zenergia", realmente a analogia foi meio malsucedida. Eu já propus duas diferentes em meus textos: uma distinção entre altura e estatura, tentando separar biologia de ambiente em cada um dos termos, e entre água e "úgua", em que "úgua" seria o fluido só quando em estado de turbulência, mais difícil de explicar. Essa segunda analogia é mais feliz, creio, porque reconhece as complexidades tocadas pelo termo "gênero", que eu concordo em abandonar como distinto de sexo e tratar como sinônimo.