Ainda sobre a feminização da universidade
Uma resposta às objeções mais comuns sobre a feminização das universidades e seus efeitos
Depois que publiquei um texto sobre a feminização da universidade, alguns leitores me escreveram para dizer que a mudança talvez seja positiva. Uma instituição menos masculina poderia se tornar menos hostil, menos hierárquica e mais atenta às pessoas que durante muito tempo precisaram adaptar-se a regras feitas sem elas.
A ideia tem pedigree acadêmico. Em seu ensaio sobre o “método adversarial” da filosofia, Janice Moulton argumentou que a disciplina havia transformado a agressividade em sinal de competência: pensar bem significava encontrar um adversário, descobrir suas fraquezas e derrotá-lo diante dos demais. Sally Haslanger descreveu os departamentos de filosofia como ambientes frequentemente “hipermasculinos”: competitivos, combativos, pouco acolhedores, orientados para realizações individuais e para o julgamento constante dos colegas. O rigor intelectual teria sido confundido com um estilo específico de confronto. E esse confronto acadêmico seria uma versão intelectual das guerras masculinas e disputas por hierarquia baseada em dominância.
De minha parte, acredito que rigor epistêmico vem de uma relação dialética constante entre competição de um lado e acolhimento do outro; não um OU outro, mas um E outro. Também é verdade que alguns debates dependem quase inteiramente de competição entre ideias até que sobreviva a melhor. Em outros momentos, devemos caminhar através de sínteses entre as partes em disputa.
O que torna a feminização das universidades um potencial problema não é a maior presença das mulheres em si. Se você acha isso mesmo, deve voltar muitas casas nesta conversa. Universidades são, essencialmente, um terreno epistêmico. Ela existe para produzir, transmitir e testar conhecimento. Precisa oferecer condições para que pessoas apresentem hipóteses ruins, conclusões desagradáveis e argumentos contrários às convicções morais de seus colegas. Quando o receio de causar dano começa a decidir quais perguntas podem ser feitas, a lógica acadêmica começa a ruir. Se você não entender essa parte, não vai entender mais nada sobre esse debate. O problema não é a presença das mulheres; o problema não é trocar construção conjunta de conhecimento por competição quando for pertinente; o problema é fazer com que acolhimento e proteção de sentimentos alheios seja um valor objetivamente colocado acima dos valores epistêmicos.
Foi pensando nisso que assisti a uma entrevista da psicóloga Cory Clark. Em poucos minutos, ela apresentou resultados que ajudam a tornar a discussão menos abstrata. A questão não é saber se mulheres conseguem pensar de maneira impessoal. Evidentemente conseguem. A questão é o que acontece quando disposições médias mais frequentes entre mulheres — maior aversão ao dano, maior preocupação com vulneráveis e maior preferência por resultados igualitários — ganham peso suficiente para alterar as regras informais de uma instituição.
Mas ela amplia a conversa para além disso e é a esse ponto que quero me dedicar agora. As evidências que ela cita são muito úteis nessa conversa sobre homens e mulheres, sobre quem a sociedade protege e quando, quem é privilegiado e quando.
Se diminui as mulheres, está errado
Em debates sobre gênero, profissão e discriminação se tornou praticamente um ingresso de entrada no tema começar já dizendo que todos os vieses possíveis estão contra as mulheres. O que Cory Clark mostra na entrevista é que a situação não é tão simples assim.
Ela cita um estudo intitulado The Harm Hypothesis: How Perceived Harm to Women Shapes Reactions to Research on Sex Differences, publicado em 2024 na International Journal of Psychology por Steve Stewart-Williams e colaboradores. Quatrocentas e trinta e três pessoas receberam uma reportagem fictícia sobre uma pesquisa de inteligência. Em uma versão, o resultado favorecia os homens; em outra, as mulheres. O pesquisador principal também podia ser homem ou mulher. O método descrito era o mesmo.
O estudo favorável aos homens recebeu avaliações piores, sobretudo quando atribuído a um pesquisador homem. O efeito aumentava quando os participantes eram levados a pensar nos possíveis danos sociais das pesquisas sobre diferenças sexuais. A qualidade percebida do trabalho variava conforme o grupo beneficiado pela conclusão. Os participantes simplesmente pensavam que se as evidências apontavam para uma menor inteligência feminina, a pesquisa só podia estar errada.
Esse mecanismo não é exclusividade feminina. Homens também protegem crenças, grupos e hierarquias dos quais dependem. A história da ciência oferece material suficiente sobre religião, nacionalismo, prestígio e interesses profissionais. O ponto a ser chamado a atenção é que existe uma assimetria contemporânea muito clara: resultados favoráveis às mulheres costumam ser recebidos sem grande preocupação com seus efeitos sociais; resultados favoráveis aos homens chegam acompanhados por uma pergunta adicional — quem poderá ser prejudicado por isso? Na minha opinião, isso é exatamente o que deveria ser esperado numa sociedade neocavalheiresca.
Benevolência seletiva
Desde o fim dos anos 1980, trabalhos de Alice Eagly e Antonio Mladinic — posteriormente sintetizados em uma revisão publicada em 1994 — mostram que, quando homens e mulheres são avaliados como categorias sociais gerais, as mulheres tendem a receber julgamentos mais positivos. O padrão, conhecido como women-are-wonderful effect, reapareceu tanto em medidas de atitudes automáticas quanto em uma comparação envolvendo 44 culturas, embora sua intensidade varie conforme o contexto social -- o efeito era menor nos países mais igualitários.
Em um experimento de 1991 publicado na Psychology of Women Quarterly, Eagly, Mladinic e Stacey Otto pediram a homens e mulheres que avaliassem os dois sexos como categorias sociais: as mulheres receberam avaliações mais favoráveis, sem que os dados indicassem que essa positividade apenas encobria emoções ambivalentes ou negativas. O efeito também apareceu fora dos questionários explícitos. Em quatro experimentos publicados em 2004 no Journal of Personality and Social Psychology, Laurie Rudman e Stephanie Goodwin encontraram entre as mulheres um viés automático em favor do próprio sexo consideravelmente mais forte do que o favoritismo masculino pelos homens. O padrão, contudo, não é uniforme entre sociedades.
Uma metanálise pré-registrada publicada em 2023 na Organizational Behavior and Human Decision Processes reuniu 244 estimativas de 85 estudos de campo, nos quais 361.645 candidaturas fictícias foram enviadas a empregadores entre 1976 e 2020. Nos estudos sobre ocupações mistas ou estereotipicamente masculinas, o antigo viés de seleção favorável aos homens diminuiu ao longo das décadas e, a partir de aproximadamente 2009, desapareceu — ou chegou a se inverter ligeiramente em favor das mulheres. Já a desvantagem enfrentada por candidatos homens em ocupações estereotipicamente femininas permaneceu relativamente estável. Em uma segunda etapa, 499 adultos e 312 cientistas tentaram prever os resultados da metanálise. Ambos os grupos perceberam corretamente a redução da discriminação contra mulheres, mas superestimaram sua persistência e não anteciparam a estabilidade da discriminação contra homens em empregos considerados femininos.
O que os professores dizem em particular e em público
Uma das objeções mais recorrentes ao meu texto sobre a feminização da universidade apareceu também nos comentários: a ideia de que mulheres teriam, em média, uma motivação maior do que homens para proteger pessoas e grupos percebidos como vulneráveis — e de que essa preocupação poderia, em certas circunstâncias, sobrepor a avaliação moral de uma conclusão à sua qualidade epistêmica. Para muitos leitores, essa hipótese é apenas um estereótipo apresentado com vocabulário científico.
A questão, porém, produz consequências institucionais verificáveis. Quando determinadas conclusões são avaliadas pela solidez dos métodos e, ao mesmo tempo, pelo dano moral que poderiam causar, mudam os incentivos para pesquisar, publicar e discordar. É esse conflito que Cory Clark e seus colaboradores examinaram em Taboos and Self-Censorship Among U.S. Psychology Professors, um estudo publicado em 2024 no Perspectives on Psychological Science.
O estudo começou com entrevistas a 41 pesquisadores, usadas para selecionar dez conclusões consideradas tabu, e prosseguiu com uma pesquisa respondida, ao menos parcialmente, por 470 professores de psicologia de universidades norte-americanas. Entre as afirmações apresentadas estavam as de que os vieses de gênero não seriam a principal causa da sub-representação feminina em STEM; de que o sexo biológico seria binário para a grande maioria das pessoas; de que homens e mulheres desenvolveram características psicológicas diferentes em razão da evolução; e de que diferenças genéticas explicariam uma parcela não trivial das diferenças raciais observadas em testes de inteligência. A lista incluía ainda proposições sobre influência social na identidade trans, viés político nas ciências sociais e os efeitos da diversidade demográfica sobre o desempenho organizacional. Os pesquisadores não endossavam essas frases: queriam medir quanto os professores acreditavam nelas, quanto relutavam em expressar sua opinião e se julgavam que tais hipóteses deveriam ser investigadas.
Os resultados mostraram alta discordância entre os docentes quanto à veracidade das afirmações. Em todas as dez, havia participantes absolutamente convencidos de sua verdade e outros igualmente convencidos de sua falsidade. Isso mostra que o estudo não encontrou simplesmente um consenso reprimido, mas conflitos empíricos reais acompanhados por custos sociais desiguais para quem ocupava determinadas posições.
Homens e mulheres responderam de maneira bastante diferente. Os professores homens atribuíram maior probabilidade à veracidade de nove das dez conclusões. A maior diferença apareceu na afirmação sobre características psicológicas evoluídas: em uma escala de zero a cem, os homens deram a ela uma plausibilidade média de 75, contra 53 entre as mulheres. Também houve diferenças expressivas nas afirmações sobre o caráter binário do sexo biológico — 75 entre os homens e 56 entre as mulheres — e sobre uma contribuição genética para diferenças raciais em testes de inteligência — 35 contra 20. A única inversão ocorreu na proposição de que a academia discrimina pessoas negras: as mulheres atribuíram a ela uma plausibilidade média de 71; os homens, de 50. Mesmo depois de considerados idade e posicionamento político — as professoras da amostra eram, em média, mais jovens e mais à esquerda —, o sexo continuou associado às crenças em oito das dez conclusões.
A diferença não terminava naquilo que homens e mulheres julgavam verdadeiro. Em quase todos os temas, os homens relataram mais autocensura, o que era previsível: eram eles que acreditavam com maior frequência nas conclusões socialmente arriscadas. As mulheres, por outro lado, mostraram maior disposição para desencorajar a realização dessas pesquisas. O padrão apareceu em nove dos dez tópicos e permaneceu, com efeitos ao menos pequenos, em sete deles depois dos controles por idade e ideologia. A exceção foi a pesquisa sobre discriminação contra pessoas negras na academia, que homens e mulheres quase igualmente não desejavam impedir.
Diante disso, há claros custos. Os professores disseram temer sobretudo ataques nas redes sociais, ostracismo por colegas e a atribuição de rótulos pejorativos caso expressassem publicamente suas crenças empíricas. Além disso, quanto maior a crença nas conclusões tabu, maior tendia a ser a autocensura — salvo novamente no tema da discriminação racial na academia, em que o padrão se invertia. A consequência sugerida pelos autores é que muito do consenso acadêmico em torno de algumas pautas pode parecer maior do que é, já que demonstrar discordância pode ser prejudicial formal e informalmente. Isso cria um contraste entre o que os pesquisadores falam publicamente e suas opiniões às portas fechadas.
Essas evidências mostram, no mínimo, que não são exemplos isolados, mas uma tendência bastante alastrada na academia a disposição de censurar e de se autocensurar. Mesmo diante dessas evidências, pessoas vão duvidar da validade geral (para além de estudos com métodos artificiais).
Um caso ocorrido em 2020 mostra que as consequências institucionais podem ser bastante concretas. Em 17 de novembro daquele ano, Bedoor AlShebli, Kinga Makovi e Talal Rahwan publicaram na Nature Communications o artigo The Association Between Early Career Informal Mentorship in Academic Collaborations and Junior Author Performance. O estudo identificou cerca de três milhões de pares formados por pesquisadores seniores e juniores e tratou relações de coautoria como indicadores de mentoria informal, recorrendo também a uma pesquisa amostral para verificar se parte dessas relações envolvia alguma forma de orientação. Entre seus resultados, os autores relataram que uma proporção maior de mentoras mulheres estava associada a um impacto científico posterior menor entre pesquisadoras em início de carreira — impacto medido principalmente por citações — e sugeriram que mentorias entre pessoas de sexos diferentes poderiam, em certas condições, beneficiar mulheres que permanecessem na academia.
A reação começou quase imediatamente: dois dias depois, a revista publicou uma nota informando que investigaria críticas dirigidas tanto ao método quanto ao possível dano causado às mulheres na ciência. Em 21 de dezembro, pouco mais de um mês após a publicação, o artigo foi retratado. A nota de retratação registra que três especialistas independentes confirmaram problemas na equiparação entre coautoria e mentoria e na medida, não validada, da “qualidade” dos mentores. Em um editorial publicado no mesmo dia, a revista afirmou que conclusões controversas não deveriam ser retratadas apenas por causarem desconforto, mas também anunciou novas diretrizes para que o processo de revisão considerasse o “dano potencial” de pesquisas socialmente sensíveis.
Clark apresenta o episódio como exemplo de uma conclusão retirada por ameaçar mulheres na ciência. O episódio não prova que um artigo correto foi eliminado apenas por motivos morais. Mostra que uma conclusão moralmente indesejada pode atrair um grau de escrutínio que resultados edificantes talvez não recebam. A reação pública iniciou a inspeção; a inspeção encontrou problemas reais -- mas poderia não encontrar, e pode ser que a pressão pela retratação do artigo permanecesse pelas possíveis consequências políticas dele. Resta saber quantos trabalhos com conclusões socialmente agradáveis são examinados com o mesmo empenho.
Muito além da feminização
Praticamente 100% das pessoas que comentaram meu primeiro texto bateram nas mesmas duas teclas: primeiro, a relação entre aumento da quantidade de mulheres na academia e a mudança de paradigma que estamos testemunhando não estaria bem demonstrada; segundo, muitos outros fatores para além de mais sexo feminino nas universidades levariam a tais mudanças amplas.
Sobre o primeiro ponto, a relação entre as duas coisas não vem do nada. Por exemplo, em From Worriers to Warriors: The Cultural Rise of Women, Cory Clark começa por uma constatação psicológica: homens e mulheres apresentam, em média, prioridades sociais diferentes. Homens tenderiam a aceitar melhor hierarquias, competição aberta e liderança baseada em competência; mulheres atribuiriam maior peso à igualdade, ao cuidado, à proteção dos vulneráveis e à exclusão de pessoas percebidas como ameaças ao grupo. A autora passa então à mudança demográfica: ao longo das últimas décadas, mulheres deixaram de ser minoria e passaram a ocupar a maior parte das vagas estudantis e uma parcela crescente dos postos docentes e administrativos. Por fim, reúne pesquisas nas quais mulheres demonstram maior disposição do que homens para limitar discursos ofensivos, desencorajar investigações consideradas prejudiciais, retratar artigos por suas consequências sociais e priorizar equidade ou segurança quando esses valores entram em conflito com a liberdade acadêmica.
Clark observa que a cultura universitária se deslocou justamente nessa direção — maior atenção ao dano, à inclusão, à linguagem e à proteção de grupos vulneráveis — e conclui que a feminização provavelmente participou da mudança. O artigo não demonstra essa causalidade diretamente, mas organiza diferenças psicológicas, transformação demográfica e mudança institucional numa sequência suficientemente coerente para que a presença crescente das mulheres seja tratada como um dos fatores explicativos, e não como simples coincidência.
Sobre o segundo ponto, bom, devo dizer que concordo com ele. Outras forças participaram da mudança observada nas universidades, isso é certo e acho que ninguém questiona. Aliás, quase tudo em ciências sociais é explicado por dúzias de fatores. A mera constatação de que “não é só isso, tem mais coisa envolvida” é trivial. A homogeneidade política da academia, a expansão administrativa, as redes sociais, os departamentos de diversidade, a insegurança profissional e a transformação do estudante em consumidor contribuíram para criar uma universidade mais avessa ao risco. A feminização não explica tudo. Seria estranho, entretanto, imaginar que uma alteração profunda na composição sexual de uma instituição não modificasse nada em sua cultura.
Mulheres trouxeram à universidade talentos, experiências e correções de que ela precisava. Também trouxeram, em média, prioridades diferentes das que predominavam ali. Algumas dessas prioridades tornaram o ambiente mais civilizado. Outras podem ter reduzido sua tolerância ao conflito intelectual. A sensibilidade que percebe humilhações antes ignoradas também pode classificar uma conclusão impessoal como uma forma de agressão. Ou seja, a feminização da universidade não é uma questão de perda nem de ganhos absolutos, ainda que possamos questionar se o saldo está sendo positivo ou negativo.



Não sei se vale a questão, mas será que o ambiente seria mais frutífero ao estar mais disposto a exercer a discordância em forma de embate?
Vamos chamar essa forma de discordância de "debate". De repente duas pessoas que supostamente são antagonistas sentam a mesa e decidem discutir sobre um tema. Nos exemplos que temos desse tipo de coisa acontecendo fora do ambiente acadêmico por exemplo, nunca vi funcionar, pois enxergando o seu oponente como antagonista que precisa ser "derrotado", nunca vi ninguém disposto a dizer "estou equivocado, você se aproxima mais da verdade". E com toda a minha presunção, eu imagino que esse jogo de egos dentro de um debate acadêmico não seja algo inexistente.
Eu acho que o problema aqui talvez não seja uma questão de masculino X feminino. Talvez seja uma questão cultural de premissa da academia. Na minha visão, esse tipo de ideia de ao menos estar disposto assumir que você pode estar errado, se torne algo natural quando alguém apresentar alguma discordância.
É muito bonito falar "crítico a ideia, não a pessoa", mas isso é bem difícil de fazer, pois dependendo da linguagem e do tom usado na mesma, o atrito vai ser inevitável. Se torna problemático só quando todas as respostas são resumidas a caricaturas, como "você é um 'ista', por isso está errado", tendo nessa atitude, uma desconsideração total da análise fria dos argumentos.
Enfim, aqui eu tendo a discordar que a questão se resuma apenas a mulheres, acho que homens e mulheres estamos suscetíveis a tais tipos de reações emocionais diante uma discordância que vem se um antagonista.