A femosfera e o negócio da desconfiança
Como comunidades femininas online transformaram frustrações reais numa filosofia de cálculo de custo-benefício não muito distante da machosfera
O novo manual das mulheres
O conselho começa de maneira razoável. Não corra atrás de homens. Observe se ele cumpre o que promete. Não aceite uma relação na qual todo o trabalho emocional fica com você. Tenha vida própria. Não confunda atenção esporádica com interesse. Saia ao primeiro sinal de abuso. Conselhos dos quais ninguém teria motivos especiais para discordar.
Depois vêm as regras.
O homem deve tomar a iniciativa. Ele que deve pagar a conta. Ele deve demonstrar interesse por meio de investimento financeiro. Sexo casual reduz o valor da mulher. A maior parte dos homens não serve para um relacionamento. Homem não presta. Alguns podem ser corrigidos; outros devem ser descartados antes que seja tarde. O objetivo é encontrar um homem de “alto valor” sem revelar necessidade, insegurança ou pressa. Finja que não precisa deles até que o homem ideal apareça.
Durante alguns anos, essas ideias circularam no fórum Female Dating Strategy, criado no Reddit e posteriormente ampliado para podcasts e outras redes. O grupo reuniu mais de 250 mil integrantes. Sua doutrina continha seis princípios básicos, entre eles a obrigação masculina de perseguir e sustentar financeiramente a mulher. O namoro era apresentado como uma disputa na qual cada participante tentava descobrir as intenções do outro antes de ser enganado. É como se tivessem transformado o jogo da atratividade numa espécie de disputa entre CIA e KGB. Nesse sistema, a interação entre os sexos vira uma espécie de Guerra Fria.
O vocabulário pode parecer novo, algo da era do empoderamento feminino, mas a cena é antiga. Uma mulher examina as credenciais de um pretendente. O pretendente tenta obter alguma coisa gastando o mínimo possível. Ela precisava manter seu preço. Ele precisa provar que pode pagá-lo. (Quando as mulheres dividem a conta, é claro que essa avaliação se desloca para outra esfera de interação).
A novidade estava no enquadramento. O que antes era apresentado como submissão, uma mera forma de etiqueta, moralidade sexual, talvez até algo natural, orgânico entre os sexos, agora se tornou estratégia. É quase como Lênin, depois de constatar a naturalidade com o que o comunismo emergiria, resolvendo ele mesmo acelerar propositalmente a sua vinda. No modo de pensar que nasce sistemático no Female Dating Strategy, a mulher que espera o homem pagar não estaria obedecendo a uma convenção patriarcal; estaria obrigando-o a revelar seu nível de comprometimento; estaria exigindo justamente a contraparte de seu próprio investimento para se embelezar para o encontro. A mulher que recusava sexo casual não estaria preservando a virtude; estaria protegendo seu valor de mercado. A dependência financeira, desde que administrada com inteligência, podia ser chamada de poder.
Essas comunidades passaram a ser reunidas sob um nome ainda impreciso, pouco popular: femosfera. O termo abrange femcels, estrategistas de namoro, influenciadoras da “energia feminina”, grupos de mulheres que desistiram dos homens, defensoras da chamada pink pill, tradwives e outras pequenas repúblicas digitais formadas em torno da decepção da mulher heterossexual.
Elas discordam em quase tudo. Algumas se apresentam como feministas radicais. Outras, como os membros da machosfera, tratam o feminismo como uma catástrofe histórica. Algumas querem maridos ricos. Outras chegaram à conclusão de que nenhum homem merece o esforço. O que as aproxima é uma suspeita: homens e mulheres possuem interesses incompatíveis e a intimidade é o lugar onde um deles acaba pagando a conta.
Depois do girl power
A femosfera começou a ganhar forma no fim da década de 2010, quando uma promessa cultural feita às mulheres havia começado a perder o encanto. Essa promessa vinha dos anos 1990. O girl power, levado ao centro da cultura pop pelas Spice Girls, dizia às meninas que elas podiam ser independentes, ambiciosas, sexualmente livres e ainda se divertir no processo. Nos anos seguintes, a linguagem saiu das músicas e entrou nos escritórios. Em 2013, Sheryl Sandberg publicou Lean In. No ano seguinte, Sophia Amoruso lançou #Girlboss -- livros e manifestos incentivando as mulheres a seguirem suas ambições. A emancipação feminina passou a ser contada como uma história de confiança, liderança e sucesso profissional.
A mulher ideal daquela época trabalhava, consumia, administrava uma família, cultivava amizades, frequentava a academia, organizava sua saúde mental e mantinha uma vida sexual satisfatória. Sabia negociar salários, identificar relações tóxicas e escolher o vinho. Seu principal obstáculo era a falta de confiança. Uma vez resolvido esse problema, o mundo estaria disponível.
O problema era confiança. Resolvido esse problema, o mundo se abriria para elas. A personagem recebeu o nome de girlboss. Ela transformou a emancipação feminina numa sequência de decisões individuais: qualificação profissional, independência econômica, autoestima, liderança, produtividade.
Esse feminismo tinha uma vantagem comercial. Qualquer produto podia ser vendido como instrumento de autonomia. Roupas, cosméticos, aplicativos, congressos corporativos e jornadas de trabalho intermináveis adquiriam uma vaga dignidade histórica. O sucesso de uma mulher numa empresa representaria, por contágio, um avanço para as demais.
Só que esse arranjo envelheceu mal.
A entrada feminina no mercado não dissolveu o trabalho doméstico, o cuidado com os filhos nem a administração afetiva da família. Muitas mulheres receberam uma profissão sem entregar as antigas obrigações. O resultado foi aquilo que economistas e sociólogos descrevem há décadas como dupla jornada: trabalho remunerado seguido por outro turno dentro de casa. Em seu artigo The Reactionary Turn in Popular Feminism, Jilly Boyce Kay situa a ascensão da femosfera no desgaste do feminismo neoliberal e de sua promessa de emancipação pelo sucesso individual. Em entrevista ao Guardian, Sophie Lewis tornou o argumento mais concreto: a vida tradicional oferece às mulheres a promessa de escapar da combinação exaustiva entre trabalho produtivo e reprodutivo. A femosfera encontra parte de sua força nessa promessa de descanso — uma exaustão que o feminismo liberal soube celebrar como independência melhor do que conseguiu resolver.
A cultura tradwife dá forma visível a essa promessa de descanso. Nas redes sociais, ela aparece num repertório reconhecível: pão feito do zero, vestidos claros, crianças bem penteadas, cozinhas amplas e uma mulher ocupada com tarefas domésticas que parecem decorrer sem pressa. Não há chefe, deslocamento diário, metas trimestrais nem mensagens depois do expediente. O marido surge pouco, geralmente trabalhando fora do enquadramento. Como observa uma reportagem do Guardian sobre a estética tradwife, esse imaginário mistura vida rural, nostalgia dos anos 1950 e uma domesticidade economicamente inacessível para boa parte das famílias.
Para uma mulher exausta, essas imagens podem parecer menos uma defesa do patriarcado do que a descrição de uma vida sem sobrecarga. O que seduz não é necessariamente a submissão, mas a ausência da reunião, do trajeto até o trabalho, da creche cara e do segundo turno doméstico. A dependência econômica aparece depois, quase como um detalhe administrativo. A cozinha impecável não serve apenas de cenário: ela transforma hierarquias tradicionais em promessa de ordem, proteção e descanso.
A femosfera trata esse cansaço como prova de que a igualdade fracassou. O erro, segundo suas figuras mais influentes, teria sido persuadir mulheres a ocupar funções masculinas: competir com eles, trabalhar sob as mesmas condições e fingir satisfação. Nesse enquadramento, as mulheres estariam apenas dizendo a si mesmas “fiquem felizes porque é assim que uma pessoa feliz vive”. Mas esse é o modelo de felicidade que satisfaz a média dos homens, não necessariamente a média das mulheres. É como se as tradwifes estivessem exigindo no campo dos costumes e trabalho a mesma coisa das mulheres que criticam as universidades por seu estilo masculino de interação e produção de conhecimento, confundido com um estilo neutro. Assim o retorno a uma feminilidade mais tradicional permitiria recuperar proteção, tempo e conforto.
É claro que essa defesa não aparecem sem crítica. Não se considera todos os riscos do modelo tradicional porque o foco está em seus benefícios. Não se vê o que acontece quando o provedor perde o emprego, abandona a família, adoece, morre ou decide controlar a pessoa que não possui recursos próprios.
A fantasia começa depois que todos os riscos foram retirados da cena.
O preço de um homem
Na Female Dating Strategy, homens são classificados por valor. O de baixo valor mente, evita compromisso, consome pornografia, administra mal o dinheiro e espera que a parceira funcione como mãe, terapeuta e empregada. O de alto valor possui disciplina, renda, estabilidade emocional e disposição para investir materialmente. Nesse ecossistema, cada gesto tem valor de evidência: pagar o jantar demonstra interesse; propor dividir a conta pode indicar avareza, descompromisso ou busca por sexo barato. O encontro deixa de ser encontro e passa a funcionar como uma espécie de auditoria.
As mulheres dessa comunidade usam um certo pragmatismo logístico inspirado na biologia e na psicologia. Mulheres enfrentariam riscos maiores do que os homens nas relações heterossexuais — gravidez, violência, abandono e sobrecarga doméstica — e, por isso, deveriam aprender a avaliar homens antes de confiar neles. Há muito em jogo para fazer uma escolha desleixada. O problema surge quando comportamentos isolados ou tendências estatísticas passam a compor uma filosofia ampla sobre a natureza dos sexos ou sobre relacionamentos amorosos. Uma mensagem tardia anuncia negligência; um jantar barato prevê o que esperar num casamento. Os aplicativos de relacionamento tornam essa avaliação ainda mais natural: todos já aparecem acompanhados por idade, altura, profissão e fotografias, prontos para serem comparados e descartados com o polegar.
É nesse ponto que a femosfera se aproxima da machosfera. Ambas tratam a intimidade como mercado, classificam pessoas por valor e imaginam homens e mulheres como agentes tentando maximizar ganhos, evitar exploração e esconder fraquezas -- o que não necessariamente está errado em termos de conteúdo, mas que certamente contribui para alimentar uma visão cínica de mundo. Elas discordam sobre quem controla o jogo e quem sai prejudicado, mas concordam que existe um jogo e que é preciso conhecer bem suas regras para poder vencer.
Depois do cálculo
A femosfera convence porque não inventa inteiramente os perigos que descreve. Mulheres realmente enfrentam violência, abandono, exploração doméstica, promessas descumpridas e homens interessados em receber cuidados sem oferecer compromisso. A dupla jornada existe; os aplicativos tornaram pessoas mais facilmente comparáveis e descartáveis; a independência profissional não resolveu todas as assimetrias entre os sexos. O problema começa quando esse inventário de riscos deixa de servir à prudência e passa a fornecer uma teoria completa sobre homens, mulheres e relacionamentos.
O resultado é uma intimidade em estado de vigilância. Cada gesto precisa revelar intenções, cada despesa mede comprometimento e toda vulnerabilidade pode ser usada contra quem a demonstra primeiro. A femosfera promete proteger mulheres de relações nas quais seriam tratadas como recursos; para isso, ensina-as a avaliar os homens da mesma maneira. No fim, ninguém está exatamente apaixonado ou submetido. Estão todos negociando, fazendo contas e tentando descobrir quem será enganado antes que a conta chegue.


