Tabu do incesto como exemplo de uma natureza humana embebida na cultura
O que kibutzim israelenses, casamentos arranjados em Taiwan e uma hipótese de 1891 revelam sobre a natureza do instinto
O tabu do incesto mostra a realidade complexo do que chamamos de instinto. Não se trata competição entre cultura e biologia -- versão do argumento que se ouve muito nos cursos de Humanas e ciências sociais -- mas de uma interação complexa entre ambas.
Durante boa parte do século XX, os kibutzim ou kibbutz israelenses ofereceram aos cientistas sociais uma oportunidade que não seria autorizada por nenhum comitê de ética. Os kibutzim eram comunidades agrícolas coletivas, autogeridas e baseadas em ideais socialistas; sugestivamente, seus membros eram conhecidos como kibutzniks. Em muitas dessas comunidades, crianças sem parentesco biológico eram criadas juntas desde muito cedo. Dormiam em casas coletivas, comiam, estudavam, brincavam e atravessavam a infância como membros de um mesmo grupo -- como uma mesma família. Muita gente pensa que proximidade física e convivência são suficientes para a atração. Se isso for verdade, estaria montado nessas comunidades o cenário perfeito para todo tipo de paixonite.
Mas não foi isso que o antropólogo Joseph Shepher encontrou. Em um estudo publicado em 1971, ele examinou a vida sexual de jovens da segunda geração de um kibutz e depois levantou 2.769 casamentos realizados em 211 comunidades. Casamentos entre pessoas criadas no mesmo grupo infantil eram extraordinariamente raros; os poucos casos identificados em análises posteriores não envolviam casais que haviam convivido continuamente durante toda a primeira infância. Para Shepher, aquilo parecia confirmar uma hipótese proposta oitenta anos antes pelo antropólogo finlandês Edward Westermarck.
O desenvolvimento de um instinto
Em The History of Human Marriage, publicado em 1891, Westermarck atacou uma ideia muito intuitiva: a de que evitamos o incesto porque, de alguma maneira, sabemos instintivamente quem pertence à nossa família. Ele acreditava numa hipótese muito mais sofisticada em sua simplicidade. Convivência íntima desde os primeiros anos de vida tenderia a tornar as pessoas sexualmente indiferentes ou aversivas umas às outras quando adultas. O tabu cultural do incesto poderia, então, ter se erguido sobre essa disposição mais básica.
Ao contrário da interpretação espantalhosa claramente dada a esse tipo de afirmação, nada disso exigiria antecipações racionais, conscientes, muito menos algum misterioso detector de DNA. Durante a infância, o organismo registraria certas relações sem saber para que aquela informação um dia serviria — como um ovo psíquico que só eclode no seu próprio tempo. Se, ao longo da evolução, convivência precoce foi um indicador suficientemente confiável de parentesco, proximidade social podia funcionar como um proxy de proximidade genética.
Haveria uma boa razão evolutiva para isso. A reprodução entre parentes próximos aumenta a probabilidade de que variantes recessivas deletérias se encontrem nos descendentes, produzindo o que os geneticistas chamam de depressão endogâmica -- a família Whittaker que o diga. Em populações nas quais esse custo fosse relevante, mecanismos que reduzissem a probabilidade de acasalamento entre parentes poderiam ser favorecidos pela seleção natural.
O ponto decisivo é que o efeito Westermarck não precisa consistir numa aversão inata a “irmãos” como categoria genealógica. Pode consistir numa predisposição para aprender, durante um período sensível do desenvolvimento, quem deve entrar na categoria psicológica de “família”. A seleção natural, nesse caso, não precisa produzir um comportamento pronto. Pode produzir disposição para aprender certas coisas com mais facilidade do que outras.
Isso enfraquece a velha oposição entre inato e aprendido. Basta pensar na visão: nascemos com um sistema visual biologicamente organizado, mas parte dele só se desenvolve normalmente se os olhos receberem certos estímulos durante períodos específicos da infância. Em vez de entregar um organismo acabado, a evolução pode entregar um organismo preparado para ser completado por certas experiências. Isso é muito mais eficiente, considerando que ambientes, por mais estáveis que sejam, sempre passam por mudanças às quais os organismos acabam tendo que se adaptar para sobreviver.
Os sin-pua de Taiwan
Os kibutzim ficaram famosos como uma espécie de experimento natural porque colocavam crianças sem parentesco para viver como irmãos. Em Taiwan, uma antiga forma de casamento criou quase o espelho invertido dessa situação.
Nos chamados minor marriages ou casamentos sim-pua, estudados pelo antropólogo Arthur Wolf, meninas muito jovens eram adotadas pela família dos meninos com quem deveriam se casar no futuro. Veja a ironia da coisa: a instituição os destinava ao casamento, enquanto os fazia conviver quase como irmãos durante a infância.
Wolf examinou registros demográficos e encontrou menor fecundidade e índices mais altos de divórcio e adultério nesses casamentos do que em formas comparáveis de união nas quais os cônjuges não haviam crescido juntos. Críticos podem alegar, com razão, que os sin-pua e os kibutzim não eram experimentos controlados, o que dificultaria usá-los como argumento para entender a relação entre nossas propensões evoluídas e a cultura. Ainda assim, é difícil ignorar que os dois casos têm a vantagem rara de separar parentesco biológico de parentesco psicológico de maneira pouco artificial. Apesar de isso levar à crítica da falta de rigor e controle, há aqui a vantagem de se tratar de um experimento natural, o que facilita tirar conclusões realistas. Quando poderíamos inventar um experimento para fazer o irmão de alguém viver longamente com alguem sem ancestralidade próxima e observar os efeitos disso?
Fabricando um parente
A psicologia evolucionista contemporânea refinou essa intuição. Em 2007, Debra Lieberman, John Tooby e Leda Cosmides propuseram, em um artigo publicado na Nature, que o cérebro estima parentesco a partir de pistas disponíveis durante o desenvolvimento.
Uma delas é o tempo de co-residência. A outra, mais específica ainda, é a observação da própria mãe cuidando de um recém-nascido. Para uma criança de cinco anos, ver a mãe amamentar, carregar e cuidar de um bebê é uma pista excepcionalmente boa de que aquele bebê é seu irmão. O bebê, obviamente, não pode ter observado a cena inversa cinco anos antes; isso faz com que o tempo de convivência ganhe importância para ele.
Nos dados dos pesquisadores, a chamada maternal perinatal association e a co-residência funcionaram como pistas complementares de parentesco, associadas tanto a disposições altruístas quanto à aversão ao incesto. O cérebro precisa de algumas pistas para que o organismo faça o resto em termos de sensações e vontades (ou ausência delas).
Isso também ajuda a não resumir toda a história ao direcionamento do novo a esses potenciais parceiros. O nojo pode ser uma resposta produzida depois que alguém foi classificado como parente próximo. Estudos posteriores encontraram gradientes de aversão e respostas psicofisiológicas diante de cenários de incesto. Mas o mesmo processo de estimativa de parentesco pode ter outras consequências: aumentar investimento em parentes e diminuir motivação sexual, por exemplo.
O problema dos kibutzim
Décadas depois de Shepher, os sociólogos Eran Shor e Dalit Simchai voltaram aos kibutzim e fizeram algo muito simples: perguntaram às pessoas o que elas haviam sentido lá na infância em relação aos seus amigos próximos, aqueles quase irmãos.
Em sessenta entrevistas em profundidade com adultos criados no sistema coletivo, encontraram relatos de atração por colegas de infância. Para muitos entrevistados, romances dentro do grupo eram evitados não porque todos se percebessem como eroticamente repulsivos, mas porque namorar um companheiro ameaçava a coesão do grupo. Previsível, afinal, ciúme e outros motivos para tensão nas relações surgem com a exclusividade que esse tipo de coisa exige. É como evitar se relacionar com colegas de trabalho por prever o tipo de intriga que surge disso.
O quanto isso contradiz os achados antropológicos iniciais? Talvez a figura emergente do cenário seja apenas mais complexa do que parecia. Não querer casar é diferente de não sentir desejo. Essas duas coisas, por sua vez, são diferentes dos julgamentos morais sobre o que se sente e o que se faz com isso. Shepher observou principalmente casamento e comportamento. Shor e Simchai estavam interessados, retrospectivamente, no desejo daqueles kibutzniks. As conclusões, naturalmente, vão diferir entre si.
No final das contas, o quadro que se desenha é o de que crescer junto de fato pode reduzir, em média, a erotização de certas pessoas. Normas sociais podem se somar a esse cenário, reduzindo ainda mais a chance de uma atração inicial se transformar em relacionamento. Por último, sociedades podem transformar algumas dessas regularidades em regras explícitas de parentesco e casamento. Isso mostra como biologia e cultura não precisam disputar a mesma cadeira causal.
Talvez seja justamente por isso que o efeito Westermarck seja tão interessante para além do tabu do incesto. O efeito oferece um bom exemplo de como o instinto não é um programa fechado, ao contrário do que a interpretação usual da palavra sugere que seja. É por isso que a seleção natural trabalha com predisposições, não com comportamentos inteiros automáticos, prontos, que o organismo dispara de maneira irrefletida. E essas predisposições comumente dependem do ambiente para serem amadurecidas e se transformarem em respostas misturadas com camadas de aprendizado. Nesse sentido, perguntar se algo é “biológico” ou “aprendido” já começa sendo um erro na maneira de formular o problema. Às vezes, aquilo que é biologicamente herdado não passa de uma maneira enviesada de aprendizado.
O caso do incesto acrescenta ainda uma complicação especialmente interessante: a cultura não entra apenas depois, para proibir ou moralizar desejos já formados. Ela também organiza o cenário em que esses desejos serão formados. Decide quem dorme junto, quem cresce sob o mesmo teto, quem chama quem de irmão, quem é prometido em casamento e em que idade essas relações começam. A cultura, portanto, pode fornecer parte dos dados que um mecanismo evoluído utiliza para construir aquilo que depois parecerá espontâneo, íntimo e natural. O instinto, em vez de rival, é um constituinte da experiência subjetiva.


