Jason Arday e a ecologia dos impostores
Por que sistemas baseados em mérito e sistemas baseados em representatividade acabam produzindo fraudes diferentes, mas obedecem à mesma lógica dos incentivos.
Todo sistema baseado em incentivos tem parasitas. Instituições incentivam o que lhes parece virtude e mérito. Não demora até alguém descobrir como parecer virtuoso. Um exemplo disso é a transformação de produtividade em medida de excelência. Não tarde até que os pesquisadores aprendam a parecer mais produtivos do que são. Também não é preciso esperar muito para que esses atalhos multipliquem a produção em detrimento da qualidade. É esperado que mais ou menos a mesma coisa aconteça quando o peso das recompensas acadêmicas passa a recair mais sobre representatividade, experiências de vida e outros elementos não cognitivos do que sobre o mérito. E recompensar esses elementos também acaba congratulando automaticamente, como um próton que não existe sem um pósitron, aqueles que surfam nos atalhos dessas métricas -- aqueles que inventam ou exageram suas credenciais minoritárias.
Isso não é uma peculiaridade das políticas identitárias. É quase uma lei da vida institucional. Por exemplo, a meritocracia acadêmica, quando conduzida de forma descoordenada, incentiva automaticamente plágio, fabricação de dados, inflação curricular e uma quantidade industrial de artigos escritos sobretudo porque é preciso publicar para não perecer. Ou seja, a representatividade não inventou, mas criou um terreno fértil para novas formas de oportunismo.
Jason Arday talvez seja o caso perfeito para observar essa transformação.
Quando Cambridge anunciou sua contratação, em 2023, não apresentou simplesmente um novo professor de Sociologia da Educação. O comunicado da própria universidade destacava que, aos 37 anos, Arday se tornaria o mais jovem professor negro de sua história. O professor recém contratado havia sido diagnosticado com autismo aos três anos, não falara até os onze e não aprendera a ler e escrever até os dezoito. E dizia que pretendia usar a posição para inspirar pessoas de grupos sub-representados.
Baita história. Ele já se inicia na hierarquia acadêmica não apenas como professor, mas como símbolo.
Três anos depois, o símbolo começou a desmontar.
Se Arday não existisse, Cambridge precisaria inventá-lo
Em agosto de 2026, depois de uma sucessão de reportagens questionando aspectos de sua produção acadêmica, currículo e biografia pública, Cambridge anunciou uma nova investigação sobre suas qualificações e posições honorárias. Arday renunciou pouco depois. Ele nega ter cometido plágio. Segundo uma investigação anterior da Liverpool John Moores University, as acusações não foram confirmadas; os problemas encontrados em sua tese foram considerados “erros honestos”, até mesmo razoáveis.
Outras alegações, porém, transformaram a história do acadêmico num catálogo de feitos extraordinários. Arday afirmara ter sido professor visitante na Ohio State University e na Universidade de Glasgow — ambas disseram ao The Guardian que ele não ocupou esses postos — e ter concluído um mestrado em práticas psicodinâmicas na Birkbeck, que não encontrou registro de sua passagem pela instituição. Ele também afirmou ter publicado pela Palgrave Macmillan um livro intitulado Being Young, Black and Male: Challenging the Dominant Discourse; a editora confirmou que recebera uma proposta, mas que o livro nunca chegou a ser publicado.
A biografia esportiva e filantrópica era ainda mais cinematográfica. Arday afirmou ter corrido 30 maratonas em 35 dias e contou que, durante o desafio, sofrera uma convulsão, caíra e fraturara a fíbula — mas mesmo assim completara outras nove maratonas. Médicos consultados pelo Guardian consideraram a façanha extremamente dolorosa, embora tecnicamente possível. Em outra ocasião, Arday afirmou ter percorrido 600 milhas em seis dias, desempenho que o colocaria entre os ultramaratonistas mais extraordinários do mundo. Também declarou ter ajudado a arrecadar £5 milhões para instituições de caridade; quando questionado sobre como chegou à cifra, atribuiu o resultado a diversos coletivos de arrecadação ao longo de duas décadas e disse fazer parte de um grupo de cem pessoas cujos integrantes não poderia identificar por ter assinado acordos de confidencialidade. Também afirmou ter viajado à América do Sul e à África Ocidental para instalar pontos de água com a WaterAid. A organização respondeu que não envia voluntários ao exterior dessa maneira e tampouco facilita viagens autofinanciadas desse tipo.
Havia também os relatos de perseguição. É importante dizer que Arday foi comprovadamente alvo de abuso racista, a ponto de Cambridge ter informado que precisou filtrar seus e-mails. Mas algumas das histórias mais extremas levantaram novas perguntas. Ele relatou duas aparições de um homem mascarado dentro da faculdade, uma delas envolvendo uma faca; segundo o The Guardian, o suposto intruso não apareceu nas câmeras e ninguém na faculdade relatou ter visto uma pessoa suspeita. Arday também relatou ameaças de morte e estupro, bananas, balas e substâncias corrosivas enviadas a ele ou à família, além de uma cabeça de porco decepada deixada na casa de seus pais. Posteriormente, afirmou que a polícia havia procurado em açougues do sul de Londres a origem do animal e localizado um estabelecimento que vendera um porco inteiro naquela manhã. O Guardian consultou açougueiros da região, que disseram não ter recebido tal visita, e a Metropolitan Police afirmou que essa descrição da investigação era “categoricamente” incorreta e que nenhuma investigação desse tipo havia ocorrido.
Não é minha intenção transformar Arday antecipadamente em culpado de tudo que lhe foi atribuído. Uma espécie de transmutação da vítima no vilão. Cito esses dados porque são flagrantemente ilustrativos, obviedades ululantes de que há algo errado em toda essa história. Mas o mais interessante aqui é se perguntar por que Jason Arday tem uma biografia tão digna de ser sustentada por uma universidade como Cambridge.
A resposta está em parte no próprio modo como Cambridge contou a história. Em sua narrativa, raça, neurodivergência, origem social e trajetória de superação não apareciam como meras curiosidades periféricas. Em parte, eram a razão pela qual a chegada do futuro professor significava tanto para a instituição. Ele encarnava simultaneamente excelência acadêmica e democratização da universidade. Sua contratação podia ser apresentada como evidência de que uma Cambridge secularmente elitista estava mudando. Ironicamente, inclusão virou artigo de luxo a ser ostentado.
Não há, até aqui, evidência pública suficiente para concluir que Cambridge tenha escolhido Arday em lugar de um candidato academicamente superior por ele ser negro. Seria intelectualmente desonesto afirmar isso como fato.
Mas também seria ingênuo fingir que sua capacidade de representar diversidade foi irrelevante. A própria comunicação institucional demonstra o contrário.
É justamente aqui que vale a pena ter uma perspectiva macro.
Quando identidade entra no currículo
Durante décadas, universidades construíram sistemas formais e informais para decidir quem merece entrar, subir e permanecer em suas salas de aula. Diplomas, publicações, citações, cartas de recomendação, instituições de origem e financiamento funcionam como moedas nesse mercado. Nenhuma delas mede perfeitamente aquilo que chamamos de “mérito”, mas todas tentam chegar próximas de uma medida acadêmica que denote competência real.
Não é novidade para ninguém que, nas últimas décadas, outra preocupação entrou explicitamente nessa equação. Universidades passaram a perseguir, ao lado dos indicadores acadêmicos tradicionais, objetivos como diversidade racial, étnica e de gênero, inclusão de grupos sub-representados e ampliação da variedade de experiências e perspectivas presentes no corpo docente. A Universidade da Califórnia em Berkeley é particularmente explícita a esse respeito: ao explicar sua política de contratação de professores em clusters, o vice-reitor Ben Hermalin afirmou que a preocupação com a diversidade do corpo docente (tanto nas áreas de pesquisa quanto em termos de raça, gênero e etnia) havia sido um “major factor” na escolha desse modelo. Os programas deveriam, simultaneamente, desenvolver determinadas agendas de pesquisa, atrair e reter integrantes de grupos sub-representados e aumentar a chamada inclusive excellence.
Foi nessa mesma matéria institucional, publicada em 2021, que Berkeley apresentou Elizabeth Hoover como uma de apenas onze docentes ladder-rank que se identificavam como “Native American/Alaska Native”. Hoover defendia as contratações em cluster justamente porque permitiriam que professores deixassem de ser uma ilha dentro da universidade “por causa do tópico que ensinam e/ou da demografia que representam”. Quem diria que, dois anos depois, após uma investigação genealógica, Hoover reconheceria que não possuía documentação capaz de sustentar a ascendência indígena que reivindicara e passaria a se definir como uma pessoa branca que havia se identificado incorretamente como Native American.
Jessica Krug oferece o extremo oposto. Professora de história da George Washington University e especialista em África e diáspora africana, ela própria confessou, em 2020, ter assumido durante anos diferentes identidades negras apesar de ser uma mulher branca criada numa família judia. A universidade imediatamente a afastou das aulas.
O caso mais instrutivo talvez seja o de Carrie Bourassa. Pesquisadora canadense de saúde indígena, Bourassa chegou a dirigir o Institute of Indigenous Peoples’ Health dos Canadian Institutes of Health Research. Depois que sua alegada ascendência Métis, Anishinaabe e Tlingit foi contestada, a University of Saskatchewan a colocou de licença e abriu investigação. Ela renunciou em 2022. A universidade declarou que precisaria aperfeiçoar seus processos de contratação para vagas destinadas especificamente a candidatos com ascendência indígena.
Veja bem, esses casos não estão mostrando cabalmente que políticas de diversidade normalmente levem ao recrutamento de impostores intelectuais. O que está demonstrado aqui é que na medida em que a política de contratação muda, a ecologia dos trapaceiros também se modifica -- assim como novas moedas só produzem novos tipos de falsificação.
A ecologia dos trapaceiros
Economistas e cientistas sociais conhecem uma versão desse fenômeno como Lei de Goodhart. Essa lei se refere aos casos em que um indicador deixa de ser apenas uma medida e passa a determinar recompensas, levando as pessoas a otimizar o indicador — às vezes às custas daquilo que ele deveria medir. Já que sou professor, darei um exemplo da minha própria área: estudantes no geral frequentam a universidade com motivação primária de tirarem notas boas, não de absorver conhecimento, erudição e etc. A métrica substituiu quase totalmente o que deveria medir como o motivador central.
A academia oferece um laboratório gigantesco dessa lógica.
Se o número de artigos sinaliza produtividade, pesquisadores aprendem a transformar uma investigação em três ou quatro publicações. Se o número de citações significam impacto, os pesquisadores aprendem a se autorreferenciar. Se periódicos prestigiosos significam excelência, carreiras inteiras passam a ser organizadas em torno da capacidade de pesquisar o tipo de assunto publicável nesses periódicos. Uma análise de mais de 120 milhões de trabalhos científicos encontrou justamente sinais de que métricas clássicas de produtividade e citação vêm perdendo capacidade de medir qualidade à medida que passaram a ser intensamente otimizadas.
Nem é preciso pressupor conspirações. Incentivos podem mudar comportamentos gradualmente, mesmo sem um plano megalomaníaco por trás. Em um estudo com 630 doutorandos em biomedicina de universidades europeias, por exemplo, práticas questionáveis como dividir artificialmente resultados em múltiplos artigos (salame science), exagerar a importância dos achados e selecionar resultados estatisticamente convenientes apareceram com frequência considerável nos dilemas apresentados experimentalmente. Isso se deu mesmo entre os participantes que não foram expostos aos modelos de comportamento inadequado testados pelos pesquisadores: 37% deles escolheram alguma prática prejudicial à integridade científica.
É uma pequena ecologia evolutiva. Não tem jeito.
Mude o ambiente e algumas estratégias deixam de funcionar; outras prosperam. O acadêmico oportunista dos anos 1990 precisava parecer produtivo. O acadêmico oportunista de uma instituição que atribui valor também à representatividade, à diversidade e à contribuição para inclusão pode precisar parecer produtivo, diverso, resiliente, socialmente engajado e portador de determinada experiência de primeira pessoa.
Trapaças, longe de sumirem, estão constantemente se adaptando, tal qual leão e zebra nas savanas africanas: enquanto um fica melhor em caçar, o outro, para sobreviver, fica melhor em fugir. Mas nem todas as ecologias são igualmente suscetíveis a parasitismo. Conforme a academia coloca mais peso sobre representatividade sociodemográfica e menos em mérito real (ainda que imperfeitamente medido), os filtros que deixam a trapaça de fora do sistema se tornam menos eficientes. Sinais relacionados a desempenho cognitivo são mais eficientes no geral exatamente porque é muito mais difícil falsificar inteligência do que representatividade. Mesmo que você considere que inclusão deve representar um papel nas contratações do corpo docente de universidades de elite, é preciso admitir que essa política deixa as universidades mais vulneeráveis. O caso de Arday mostra isso de forma paradigmática.


